O fundo do poço de Tombini e dos economistas

O fundo do poço de Tombini e dos economistas

Fábio Alves

21 de agosto de 2015 | 13h39

A economia brasileira ainda não atingiu o “vale do crescimento”, como afirmou o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini. Essa é a opinião de analistas ouvidos por esta coluna, para os quais o fundo do poço ainda não foi atingido no segundo trimestre deste ano.

O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) registrou baixa de 1,89% no segundo trimestre deste ano em relação ao primeiro, na série com ajuste do BC.

Conforme a mais recente pesquisa Focus, do BC, a projeção do Produto Interno Bruto (PIB) para 2015 foi revisada de uma contração de 1,97% para uma queda de 2,01%. Mais ainda: para 2016, os analistas esperam uma retração de 0,15%.

Todavia, interlocutores desta coluna acreditam que a desaceleração da economia em 2016 possa ser mais profunda do que aponta a estimativa da pesquisa Focus.

Presidente do Banco Central, Alexandre Tombini/Estadão

Presidente do Banco Central, Alexandre Tombini/Estadão

Assim, os comentários de Tombini de que “a queda do PIB não é em V, mas em U” e que “este é o momento que estamos na parte mais baixa do U” soaram otimistas para muitos analistas.

“Os indicadores de confiança, de empresários e consumidores, continuam fazendo novas mínimas; o crédito (PF e PJ) continua secando; o desemprego sobe forte e a inflação não dá descanso para a renda real”, ponderou a esta coluna um experiente economista paulista.

Além disso, segundo este economista, “de um jeito ou de outro”, o governo reduz seu gasto.

“Não há razão para acreditar que o fundo do poço já foi atingido”, argumentou ele. “O melhor a esperar é uma redução na velocidade de queda. A recuperação, provavelmente só a partir do segundo semestre de 2016.”

Em conversa com esta coluna, o economista-chefe de um banco europeu afirmou que, apesar de não cair na mesma magnitude da “pancada para baixo” registrada pelo segundo trimestre deste ano, o PIB brasileiro seguirá em contração no terceiro trimestre e, provavelmente, nos últimos três meses deste ano.

“Não chegamos no vale ainda”, afirmou o economista acima.

Para este economista, a perda de empregos ainda vai ser sentida na economia, uma vez que esta variável é uma das últimas a afetar a atividade.

Também em conversa com esta coluna, o economista-chefe de um grande fundo de investimentos do Rio de Janeiro argumentou que é muito baixa a visibilidade da economia brasileira para se afirmar que já se atingiu o vale.

“Ainda há muitas incertezas”, disse o economista acima. “Por outro lado, a produção já caiu muito e a demanda também.”

Segundo ele, o desemprego pode piorar, puxando ainda mais abaixo a demanda.

A questão agora é 2016, segundo ele. “Ainda há gordura (para 2016): achava-se que haveria uma recuperação no ano que vem, mesmo que pequena, mas há coisas a serem corrigidas”, explicou. Para ele, não seria surpreendente se o PIB chegar a cair 1% em 2016.

“A verdade é que a visibilidade do horizonte político e econômico está muito baixa, então é difícil prever o PIB para 2016”, explicou.

Por outro lado, ele considera as declarações do BC – de que os juros precisam permanecer no atual nível por um período suficientemente longo – mais como reação à notícia de que os bancos públicos vão liberar R$ 8,1 bilhões em empréstimos subsidiados para setores da economia em dificuldade.

“Depois do BC ter recebido uma bola nas costas com a redução da meta fiscal, agora está tendo uma segunda bola nas costas via o crédito de banco público”, afirmou.

Isso significa, segundo a fonte acima, que o BC está perdendo suas âncoras para conseguir baixar os juros à frente.

Para o experiente economista paulista ouvido mais acima, não há dúvida que a piora da atividade (abrindo o hiato do produto) é uma ajuda importante para a queda da inflação. “Mas o câmbio pressionado e a inércia elevada atenuam muito o efeito desinflacionário da atividade”, explicou.

Já o economista-chefe do banco europeu lembrou que, numa taxa acumulada de 12 meses, a inflação somente cairá abaixo de 7% a partir de maio ou junho de 2016, ou seja, com uma margem muito estreita para o BC fazer o índice convergir para o centro da meta até o fim do ano.

“Mesmo supondo uma desinflação forte no ano que vem, ficará difícil o BC cortar os juros, a não ser que seja impelido pela deterioração da atividade econômica”, afirmou.

* Fábio Alves é jornalista do Broadcast

Tudo o que sabemos sobre:

PIB; inflação; Banco Central; Tombini

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: