O futuro da relação entre Dilma e Levy

O futuro da relação entre Dilma e Levy

Analistas e investidores consideram que as declarações descuidadas do ministro e as reprimendas da presidente podem levar a um desgaste irreparável no futuro próximo

Fábio Alves

30 de março de 2015 | 12h39

Levy com Dilma: palavras abalaram relação (Foto: Ed Ferreira/Estadão)

Levy com Dilma: palavras abalaram relação (Foto: Ed Ferreira/Estadão)

Apesar dos esforços do Ministério da Fazenda e do Palácio do Planalto de colocar panos quentes na mais recente gafe de Joaquim Levy,muitos analistas e investidores consideram que o risco desse episódio é acumular um desgaste irreparável no futuro próximo entre o ministro e a presidente Dilma Rousseff.

Ao falar para ex-alunos e professores da Universidade de Chicago, numa palestra realizada na terça-feira passada em um encontro em São Paulo, Levy disse: “Acho que há um desejo genuíno da presidente de acertar as coisas, às vezes, não da maneira mais fácil… Não da maneira mais efetiva, mas há um desejo genuíno.”

A declaração, divulgada no sábado, gerou mal estar no governo e no Congresso. O ministro divulgou nota – apesar de tê-la tachado apenas como uma “manifestação pessoal” – afirmando que foi mal interpretado e que a fala foi tirada de contexto.

Dada à situação crítica em que se encontra o governo Dilma, em meio à forte desaceleração econômica, efeitos das investigações da operação Lava Jato e também à crise com líderes políticos no Congresso, a estratégia do Palácio do Planalto foi minimizar o episódio, na avaliação de interlocutores desta coluna.

Na conjuntura atual, Dilma precisa mais de Levy do que vice-versa.

“Joaquim (Levy) é visto como a tábua de salvação neste momento, pois sem ele o Brasil perderia de vez a credibilidade por parte de empresários, investidores e também das agências de rating”, disse a esta coluna um renomado economista do mercado financeiro.

Mas isso não significa, segundo a fonte acima, que esse episódio não deixará marcas.

E são os resquícios dessas declarações de Levy que mais preocupam o diretor-executivo de uma administradora de recursos, que conversou com esta coluna por telefone de seu escritório no bairro paulistano do Itaim.

“Vai aumentando a insegurança do mercado tanto em relação à aprovação das medidas do ajuste fiscal quanto ao futuro da relação de Levy com a presidente Dilma”, ponderou o gestor.

Em relação às medidas provisórias do ajuste fiscal, em particular as que tratam do acesso aos benefícios previdenciários e trabalhistas, o ruído causado pelas declarações de Levy sobre Dilma tira o foco da negociação com os parlamentares, pois o governo tem que gastar energia e tempo para contemporizar os estragos das críticas do ministro à presidente, na avaliação do gestor acima.

Na agenda do ministro Levy nesta semana está uma audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), do Senado, na terça-feira, quando defenderá as medidas do ajuste fiscal e também falará sobre os próximos passos da política econômica.

“A declaração feita pelo ministro de que a presidente Dilma Rousseff ‘tenta acertar’, mas não da maneira ‘mais fácil’ ou ‘eficaz’, será alvo de duros questionamentos pelos parlamentares”, escreveram os analistas da consultoria política Arko Advice em relatório a clientes hoje.

Quanto ao impacto das declarações de Levy na sua relação com a presidente é fonte de preocupação para os interlocutores desta coluna, uma vez que esta não foi a primeira vez que uma fala do ministro desagrada a presidente.

No dia 28 de fevereiro, durante uma viagem ao Uruguai, Dilma classificou de “infeliz” a declaração de Levy, que chamara de “grosseira” a política de desoneração da folha de pagamentos de alguns setores adotada pela equipe econômica no primeiro mandato da presidente.

Dilma chegou a minimizar a repreensão pública que fez ao ministro ao ressaltar que estava comprometida com o ajuste fiscal.

A dúvida levantada por um economista de um banco estrangeiro é que, enquanto está politicamente fragilizada, a presidente segue inclinada a contemporizar mais uma declaração do ministro que a desagrada.

“E quando ela (Dilma) conseguir se fortalecer mais politicamente, como vai lidar com as críticas veladas ou não do seu ministro?”, indaga a fonte.

A preocupação que teima em pairar sobre o mercado financeiro vem da percepção de que a aceitação por parte de Dilma, ideologicamente, a Levy e à sua postura ortodoxa de política econômica foi mais uma imposição das circunstâncias do que o encontro de “almas gêmeas”.

* Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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