O impeachment de Dilma melou?

Governo avança nas negociações no Congresso e investidores podem ser forçados a reprecificar suas apostas no mercado

Fábio Alves

07 de abril de 2016 | 15h01

O avanço do governo nas negociações com partidos e parlamentares oferecendo cargos na administração federal em troca de votos elevou hoje a incerteza sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff para o ponto máximo dos últimos dias.

Um importante interlocutor desta coluna, que pediu anonimato, admitiu ter passado a considerar o cenário em que a presidente Dilma consegue escapar do impeachment.

Assim, está na hora de o mercado encarar a seguinte pergunta:

Melou o impeachment?

Para o interlocutor acima, o desenrolar dos acontecimentos desde o desembarque do PMDB do governo Dilma, no último dia 29, mostra que o “impeachment ainda não está pronto” em razão de dois fatores importantes.

O primeiro é o peso da caneta, isto é, a capacidade de fogo do governo em angariar apoio para barrar o impeachment no plenário da Câmara dos Deputados ao oferecer Ministérios e cargos no segundo e terceiro escalões da máquina pública.

Ontem, o Partido Progressista anunciou que permanecerá na base aliada, votando contra o impeachment, após ter ganho cargos, como a diretoria-geral do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs). O PP conta com 48 deputados, a terceira maior bancada na Câmara.

Atualização por volta do meio-dia desta quinta-feira do levantamento realizado pelo Grupo Estado mostra que o número de votos a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff está em 265 e os votos contras estão em 110.

Neste momento, há ainda 69 indecisos e 69 não quiseram responder/não foram encontrados. São necessários 342 votos para aprovar o impedimento da presidente na Câmara.

O segundo fator que mostra que o País não “está pronto para o impeachment de Dilma”, segundo o interlocutor desta coluna, está na percepção de que o vice-presidente Michel Temer “não é um porto seguro” caso venha herdar o comando do País.

Esse sentimento aumentou depois que a liminar concedida na terça-feira pelo ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), que ordenou o presidente da Câmara dos Deputados iniciar um processo de impeachment do vice-presidente.

É crescente a visão entre atores políticos e econômicos de que Michel Temer sofre de um déficit de legitimidade.

Como um eventual governo dele conseguirá aprovar medidas econômicas fundamentais no Congresso com esse déficit de legitimidade?

Em conversa com esta coluna, o analista político da MCM Consultores, Ricardo Ribeiro, disse que o processo de impeachment da presidente Dilma perdeu força.

“O governo conseguiu segurar o PP, PR e PSD”, comentou Ribeiro. “Se esses partidos não votarem massivamente pelo impeachment (entre 70% e 80%), Dilma continua.”

O risco no curto prazo, portanto, será o de os investidores serem forçados a reprecificar sua aposta pelo impeachment, a qual resultou na apreciação de 10% da moeda brasileira frente ao dólar no mês passado.

Essa hora da verdade chegou?

Ainda não, mas está próxima.

Por enquanto, a maioria dos investidores permanece com o cenário base de impedimento da presidente Dilma, com uma eventual troca de governo até o fim do primeiro semestre deste ano.

Mas se o termômetro do impeachment já não endossa euforia, talvez quem ainda esteja em negação sobre o avanço conseguido pelo Palácio do Planalto em trocar cargos por votos terá de pagar a amarga fatura de correr atrás da curva.

Em tempo: vale a pena observar, como ocorreu no evento ontem em Ribeirão Preto, o semblante, o humor e a linguagem corporal da presidente Dilma nas suas aparições públicas. Ontem, a presidente parecia mais leve – cortesia do PP?

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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