O impeachment de Joaquim Levy

Ações

Empresas de Eike disparam na bolsa após fim de recuperação judicial da OSX

O impeachment de Joaquim Levy

Credibilidade do ministro da Fazenda foi gravemente abalada pela mais recente onda especulativa sobre sua saída do governo

Fábio Alves

12 de novembro de 2015 | 12h13

Foto: Marcos de Paula/Estadão

Foto: Marcos de Paula/Estadão

Um marciano que aqui pousasse inopinadamente nesta quinta-feira e batesse os olhos na primeira página do jornal Valor Econômico não titubearia em responder a pergunta sobre quem é o ministro da Fazenda brasileiro: Henrique Meirelles.

Mais ainda: a corretora Brown Brothers Harriman, o banco alemão Commerzbank e a MCM Consultores, para citar alguns exemplos, enviaram relatórios a clientes hoje analisando os rumores da substituição de Joaquim Levy, atual dono do cargo, por Meirelles e seu eventual impacto no mercado financeiro.

Diante de tamanha especulação – e em alguns casos, pura forçada de barra -, qual é a condição que Levy terá de comandar a economia brasileira daqui em diante? Qual será sua força em negociar com o Congresso ou com outros agentes econômicos se o seu emprego está constantemente ameaçado?

Da mesma forma que a governabilidade da presidente Dilma Rousseff se exauriu rapidamente neste ano, a credibilidade de Levy foi gravemente abalada pela mais recente onda especulativa sobre sua saída do governo. Cortesia do ex-presidente Lula e de expoentes do PT.

Ao contrário de Guido Mantega, seu antecessor, Levy não tem o PT para lhe segurar no cargo. E Lula, levado por suas ambições em relação ao pleito de 2018, quer recuperar a simpatia dos movimentos sociais e de parte do eleitorado que se sentiu traído pelo chamado estelionato eleitoral.

Levy tem a banca e os empresários a seu lado, mas a campanha negativa contra ele parece estar surtindo efeito no sentido de acuar a presidente Dilma a tal ponto que torne o atual ministro uma figura quase decorativa no Palácio do Planalto, fazendo com que sua permanência no cargo retarde mais ainda a recuperação da economia.

Hoje, Levy é percebido como coadjuvante de Nelson Barbosa, do Planejamento, este sim visto como representante do pensamento heterodoxo que marcou a Nova Matriz Econômica do primeiro mandato de Dilma e que tanto agrada ao PT.

Em relação a Meirelles, diante dos rumores de que ele e Dilma não se bicam, o cargo de ministro da Fazenda seria o seu emprego de maior repercussão junto aos eleitores, apelo suficiente para ele relevar suas diferenças com a presidente.

Desde que Fernando Henrique se tornou o ministro da Fazenda de Itamar Franco, tirando o País do abismo com o Plano Real e lhe garantindo uma até então impensável Presidência da República, o cargo ocupado hoje por Levy passou a ser a cobiça de políticos e de partidos.

O PT, por exemplo, desde que chegou ao poder não abriu mão de comandar o Ministério da Fazenda e toda a sua influência na economia brasileira, com a Receita Federal, por exemplo, à reboque.

Antonio Palocci agradava o mercado financeiro, os investidores e analistas, mas era homem do PT. Guido Mantega, apenas o PT.

Desde que Dilma nomeou Levy, o partido não deu trégua na busca de reaver o comando da economia.

De quem é a culpa de a crise econômica persistir? De Dilma ou de Levy?

Se é verdade que o Banco Central não consegue baixar os juros, temendo o descontrole das expectativas inflacionárias, porque o ajuste fiscal originalmente proposto por Levy foi derrotado ou desfigurado no Congresso, a culpa é da ausência de uma base aliada suficientemente coesa para aprová-lo.

A culpa é da fraqueza política de Dilma e não do plano que Levy tinha em mente para recuperar as finanças públicas e retomar a confiança dos agentes econômicos, abrindo a porta para a volta dos investimentos.

A não ser que Meirelles consiga trazer consigo os votos dissidentes dos parlamentares do PMDB, do PT e de outros partidos da base aliada para aprovar medidas importantes do interesse do governo no Congresso, o que ele poderia fazer de tão diferente do que Levy propôs? Injetar mais estímulo ao crédito e ao consumo?

Quem vai investir no Brasil ou tirar da gaveta projetos de médio e longo prazo se as contas do governo e a dívida pública caminham numa trajetória insustentável?

Na conjuntura política atual, onde a presidente luta para afastar o risco de um processo de impeachment avançar no Congresso, Dilma parece ter pouquíssimo capital político para rejeitar a nomeação de Meirelles, se assim Lula e o PT demandarem. Foi assim com a substituição de Aloizio Mercadante por Jaques Wagner no comando da Casa Civil.

Pelo andar da carruagem, o bem avaliado Joaquim Levy, por seus pares no mercado financeiro, parece já ter perdido a legitimidade de seguir como ministro da Fazenda, independentemente do que conseguiu ou ainda poderia fazer para arrumar a casa.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: