O ‘impeachmentômetro’ de Dilma

Levantamento do 'Estado' mostra que, hoje, a disputa em torno do impeachment da presidente ainda está em aberto

Fábio Alves

04 de abril de 2016 | 11h37

Depois do avanço do governo Dilma Rousseff nas negociações com partidos nanicos e o baixo clero na Câmara de Deputados para obter votos a seu favor em troca de cargos na administração federal, o mercado inicia a semana de olho no placar do impeachment.

Após a publicação pelo jornal O Estado de S. Paulo de pesquisa sobre a posição dos 513 deputados na Câmara em relação ao impeachment, um operador de bolsa enviou a seguinte pergunta no final da noite de domingo:

“Você acha que ela tem alguma chance de escapar do impeachment?”

Pelo levantamento, 261 deputados votariam a favor da abertura do procedimento, enquanto 117 se posicionaram contra. Nove não quiseram se manifestar; 55 disseram estar indecisos ou preferiam esperar a orientação partidária e 71 integrantes de 15 siglas não foram localizados.

Uma postura do governo Dilma de ignorar a necessidade de uma âncora fiscal ou monetária poderá dar certo apenas se o câmbio ajudar. Foto Fernando Bizerra Jr./EFE

Governo Dilma não pode ser dado como morto (Fernando Bizerra Jr./EFE)

Ou seja, apesar de nadar contra a corrente, o Palácio do Planalto não pode ser dado como morto na fotografia de hoje.

Foi exagerado o otimismo inicial de vários operadores, investidores e analistas sobre a velocidade do desfecho do impeachment. E o levantamento de O Estado de S. Paulo mostra que, hoje, a disputa ainda está em aberto.

A perda do mandato da presidente Dilma via impedimento no Congresso até o fim deste primeiro semestre passou a ser e ainda é o cenário base dos investidores e os preços dos ativos refletem isso.

O Credit Suisse, por exemplo, calculou o seu “impeachment-o-meter” (algo como “impeachmentômetro”) para aferir a probabilidade implícita do mercado em relação ao impedimento da presidente Dilma, utilizando uma ampla cesta de ativos.

No dia 29, data do anúncio do PMDB, o Credit Suisse calculou que o mercado precificava um pouco mais de 60% o impeachment da presidente. Naquele dia, o dólar fechou cotado a R$ 3,6357 e a Bovespa, a 51.164,99 pontos.

Por volta das 10h58 desta segunda-feira, o dólar era negociado a R$ 3,5867 e a Bovespa, a 49.936,69 pontos.

Assim, os preços dos ativos vão reagir com maior sensibilidade ao noticiário político, em particular às negociações do Palácio do Planalto para angariar votos contra o impeachment.

Outro catalisador será a decisão do plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a nomeação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como ministro da Casa Civil e a manutenção ou não das investigações sobre ele no âmbito da Lava Jato na alçada do juiz Sérgio Moro. Além, é claro, do parecer do relator Jovair Arantes (PTB-GO), da comissão especial do impeachment, que deve ser divulgado até o fim desta semana.

Sobre o placar do impeachment, vale destacar o número expressivo de parlamentares não encontrados para declarar posicionamento na pesquisa do Estadão: 71. Além disso, são muitos os deputados que se disseram indecisos (55).

“O porcentual de deputados indecisos ou que não foram localizados não é desprezível”, comentaram os analistas da LCA Consultores em relatório a clientes. “Um fator que pode pesar favoravelmente ao impeachment junto ao grupo de deputados indecisos é a pressão da opinião pública.”

PMDB (11), PP (10) e PR (6) são os partidos com o maior número de indecisos declarados na pesquisa do Estadão. Não à toa a complexa operação do Palácio do Planalto para acomodar os principais cargos entre essas legendas.

Para a oposição, ainda faltam 81 votos para conseguir o mínimo de 342 necessários para aprovar o impeachment. Não vai ser fácil.

“A oposição bate cabeça, não tem uma estratégia clara, age de forma desarticulada com os demais partidos da base, além de não haver qualquer calendário definido de manifestações em favor do impeachment”, escreveram os analistas da consultoria política Arko Advice, em relatório a clientes. “Mas o quadro ainda carrega muita volatilidade e está longe de ser favorável ao governo, que conseguiu congelar a situação, mas não reduzir a adesão ao impeachment.”

Não chega, portanto, a surpreender a pergunta no final da noite de ontem que fez a esta coluna o operador de bolsa.

É, de fato, um contraste em relação ao espírito mais eufórico dele e de vários outros até a última terça-feira, dia em que o PMDB oficializou o desembarque da base aliada.

Por enquanto, a melhor definição do humor dos investidores hoje seria otimismo cauteloso. O risco para os preços é o sentimento virar ceticismo.

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