O legado de Alexandre Tombini

Tombini provavelmente deixará o cargo com uma reputação mais arranhada do que quando assumiu o comando do BC

Fábio Alves

28 de abril de 2016 | 12h27

A próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para os dias 7 e 8 de junho, marcará provavelmente a despedida de Alexandre Tombini do comando do Banco Central.

Com a perspectiva de o Senado aprovar a admissibilidade do impeachment da presidente Dilma Rousseff, aceita já pela Câmara, e que prevê o afastamento dela por 180 dias, o mercado vem antecipando uma troca de governo e, por tabela, uma mudança na equipe econômica.

A aposta de analistas e investidores é que, num eventual governo Michel Temer, o ministro da Fazenda será Henrique Meirelles, que deve escolher um substituto para Tombini à frente do BC.

O balanço da gestão dele, que assumiu a Presidência do BC em janeiro de 2011, é negativo, no geral. Tanto que se diz que a sua substituição por um economista de reputação no mercado financeiro entrará no pacote de mudança da equipe econômica visando um choque de credibilidade e de confiança.

Essa avaliação não reflete as credenciais acadêmicas de Tombini, inegavelmente de primeira linha.

Mas o calcanhar de Aquiles dele foi a comunicação. Errática, na melhor das hipóteses.

É preciso antes destacar que, dos últimos presidentes do BC, foi o que talvez tenha enfrentado as condições macroeconômicas mais adversas, como parte de um governo tido como irresponsável fiscalmente e que pouco valorizou o combate à inflação e à ancoragem das expectativas visando o centro da meta, de 4,5%.

Diante da explosão nos gastos públicos, da deterioração da trajetória da dívida bruta, dos retrocessos à Lei de Responsabilidade Fiscal e dos rebaixamentos da classificação soberana de risco, pode-se até ver o mérito de Tombini em conseguir que a inflação não disparasse muito além dos 10,67% registrados em 2015.

Mas essa alta forte da inflação no ano passado foi reflexo também das escolhas de Tombini à frente do BC.

Em meio a toda a confusão que foi a Nova Matriz Econômica, adotada durante o governo Dilma, qual seria a reação de algum desavisado que pousasse no Brasil, vindo de Marte, à informação de que os juros básicos caíram até 7,25%?

Em razão disso, paira sobre Tombini a suspeita de que houve ingerência política na gestão dele à frente do BC. Injustificável ou não, o problema é que uma suspeita dessa corrói a credibilidade de um banqueiro central e torna mais difícil e custosa a tarefa de controlar as expectativas.

Talvez um dos legados que Tombini deixará para o futuro: a de que baixar juros por decreto é insustentável. Talvez ele até possa ser reconhecido pela bravura em cortar os juros naquela magnitude para testar o experimento da tese do “duplo equilíbrio”. Faltou na receita, além dos juros baixos, a disciplina fiscal. Graças a Tombini (e à presidente Dilma), pode-se dizer que, para testar novamente essa hipótese do “duplo equilíbrio”, será preciso antes arrumar as contas públicas.

Por fim, as barbeiragens na comunicação ficarão na memória de analistas e investidores como a marca da gestão Tombini. Houve inúmeras. A mais recente – e talvez a que mais tenha feito estrago à reputação dele – foi em janeiro, quando ele deu um cavalo de pau na sinalização sobre o passo seguinte para a política monetária.

Nas semanas que antecederam aquela reunião do Copom, Tombini vinha guiando as expectativas para uma alta na taxa Selic. Na véspera da decisão, ele reverteu sua posição, indicando a estabilidade dos juros, utilizando como pretexto a piora das projeções para o desempenho da economia brasileira do Fundo Monetário Internacional (FMI), após ter se encontrado no dia anterior com a presidente Dilma no Palácio do Planalto.

Tombini provavelmente deixará o cargo – se for confirmada a expectativa do mercado de troca na equipe econômica – com uma reputação mais arranhada do que quando assumiu o comando do BC.

Mas a culpa foi dele ou do governo do qual ele fez parte?

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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