O noticiário político e o risco de recuo brusco no dólar

O noticiário político e o risco de recuo brusco no dólar

Notícias que envolvam mais diretamente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula às denúncias oriundas da Operação Lava Jato e do financiamento ilegal das respectivas campanhas eleitorais podem derrubar o dólar

Fábio Alves

02 de março de 2016 | 11h04

Foto: Joedson Alves/Reuters

Noticiário político voltou a ser um risco para quem assumiu uma posição pessimista. Foto: Joedson Alves/Reuters

Com o dólar sem fôlego no cenário internacional, após os investidores passarem a apostar em uma alta bem mais modesta dos juros americanos pelo Federal Reserve (Fed), o noticiário político brasileiro volta a ser o grande risco para quem assumiu uma posição mais pessimista em relação ao real frente à moeda americana com base nos fundamentos da economia, como a expectativa de fracos resultados fiscais.

O risco crescente agora no mercado cambial é que o noticiário político gere um “short squeeze”, ou seja, os que estão vendidos em reais, apostando em alta adicional do dólar, sejam forçados a reverter essa posição de uma hora para outra.

Como gatilho para um potencial movimento brusco de recuo do dólar, em razão de um “short squeeze”, interlocutores desta coluna apontam notícias que envolvam mais diretamente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula às denúncias oriundas da Operação Lava Jato e do financiamento ilegal das respectivas campanhas eleitorais.

Há quem diga que boa parte da queda de 1,36% do dólar à vista na sessão de negócios ontem, quando a moeda americana fechou cotada a R$ 3,9442, foi um reflexo do noticiário político, em particular informações de que a empreiteira Andrade Gutierrez teria negociado com o ex-ministro Antonio Palocci o pagamento de R$ 6 milhões para o caixa dois da campanha de Dilma em 2010.

Por volta das 10h24, o dólar estava sendo negociado a R$ 3,9222, em queda de 0,56%.

“Como o pano de fundo internacional sopra a favor, com um dólar mais fraco, o noticiário da Lava Jato chegando cada vez mais perto de Dilma e de Lula faz com que aqueles com uma posição mais pessimista em relação ao real fiquem com medo de serem pegos de surpresa num movimento mais brusco de valorização do câmbio por conta de uma notícia inesperada do cenário político”, explicou um grande participante do mercado de câmbio em conversa com esta coluna.

Para ele, o investidor vai acompanhar com atenção o desenrolar das investigações da Lava Jato, além também do que o Supremo Tribunal Federal (STF) possa decidir sobre o mandato do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.

Se houver esse catalisador político gerando um movimento de “short squeeze”, o interlocutor acima acredita que o dólar possa até recuar para um patamar de R$ 3,80 no curto prazo, caso a moeda americana siga também numa tendência comportada no mercado internacional com os investidores continuando a precificar que o Fed poderá elevar os juros americanos apenas uma vez neste ano, se muito.

A posição técnica do mercado de câmbio ainda é para uma desvalorização do real frente ao dólar com base nos indicadores de atividade, de inflação e da perspectiva para o resultado fiscal do País neste ano.

Todavia, o noticiário político tem o potencial de se tornar o ponto de virada no cenário dos preços de ativos brasileiros, especialmente na visão dos investidores estrangeiros que tenham reduzido bastante suas aplicações no País nos últimos meses. Até porque, ao contrário dos fundamentos, o risco político é muito mais difícil medir.

Se alguma notícia relevante deflagrar a percepção de que possa indicar o risco de a presidente Dilma Rousseff ter seu mandato encurtado, via cassação da sua chapa com Michel Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ou via impeachment no Congresso, há a probabilidade de os investidores estrangeiros acharem que precisam voltar a alocar mais recursos em ativos brasileiros.

E o primeiro reflexo disso seria na cotação do dólar.

Mais do que o governo possa falar ou fazer em termos de medidas econômicas, principalmente aquelas que dependam da aprovação do Congresso, quem poderá mais fazer preço são a Polícia Federal, o Ministério Público Federal, o STF e o juiz Sérgio Moro.

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