O novo voo de galinha

Está praticamente consolidado o cenário base de muitos analistas e investidores de que Dilma conseguirá terminar o seu mandato

Fábio Alves

07 de janeiro de 2016 | 12h15

O cenário econômico externo e doméstico – incluindo as decisões do ministro da Fazenda, Nelson Barbosa – volta a pesar mais na direção dos preços dos ativos do que o ambiente político, e não somente por conta do recesso do Congresso Nacional.

Desde a definição do rito do impeachment pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que jogou um balde de água fria tanto na oposição quanto em alas antigovernistas do PMDB, a ameaça ao segundo mandato da presidente Dilma Rousseff caiu bastante.

E dois outros temas devem desviar a atenção do avanço do impeachment nos próximos dois meses: a disputa pela presidência do PMDB, cuja eleição ocorrerá em março, e o processo de cassação do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que voltou a ser o foco de novas denúncias de corrupção e enriquecimento ilícito.

A crise política dominou a atenção de investidores e analistas em relação ao Brasil durante boa parte de 2015.

A incerteza crescente sobre a permanência de Dilma no cargo, combinada com as prisões de políticos e empresários no âmbito das investigações da Lava Jato, chegou até a neutralizar em parte a reação dos mercados à divulgação de indicadores negativos da atividade econômica e de inflação.

Agora não.

Ao menos por enquanto, está praticamente consolidado o cenário base de muitos analistas e investidores de que Dilma conseguirá terminar o seu mandato, ao menos pela via impeachment com base nas pedaladas fiscais.

A não ser que uma nova denúncia da Lava Jato, da Operação Zelotes e de outra investigação venha abalar o ambiente político, envolvendo mais diretamente o Palácio do Planalto.

Tanto está mais tranquilo o “front” impeachment que há setores da oposição que estão apostando suas fichas para tirar a presidente do cargo na investigação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) das contas de campanha da chapa Dilma e Michel Temer.

Sem a turbulência política, os preços dos ativos brasileiros vão reagir mais fortemente a novos indicadores de atividade e anúncios de políticas da China, hoje uma ameaça mais tangível aos países emergentes. Também poderá pesar qualquer percepção de um ciclo de aperto monetário mais gradual do que inicialmente esperado pelo Federal Reserve (Fed).

É nesse entorno ainda que voltam a ter mais peso as palavras do ministro da Fazenda. Em meio à crise política do ano passado, muitas declarações de Joaquim Levy, o ex- da Pasta, ficaram no segundo plano no noticiário do dia.

Agora, a expectativa de muitos interlocutores desta coluna é de que Barbosa venha anunciar medidas que possam abafar a insatisfação popular e o sentimento de recessão aguda, afastando, portanto, o espectro do impeachment via crise econômica.

Muitos analistas vêm falando nas últimas semanas de novo “voo de galinha” que Barbosa e o governo vêm engendrando para comprar mais tempo para Dilma e também para as pretensões do PT nas eleições presidenciais de 2018.

Sem se importar, é claro, com a fatura a ser paga mais adiante.

Ao bater o martelo para fixar o novo valor do salário mínimo, por exemplo, a presidente Dilma estimou a inflação do mês de dezembro (em 1,16%) perto do teto das projeções dos analistas. Com isso, o reajuste do salário mínimo foi de 11,67% para R$ 880,00. Quando, no ano passado, a presidente fixou o reajuste da tabela do Imposto de Renda, ela estabeleceu o centro da meta de inflação, de 4,5%.

Ao dar um reajuste talvez um pouco maior do que o necessário para o salário mínimo, a presidente estaria jogando para a sua plateia: o PT e os movimentos sociais. Mas sem pensar que um salário mínimo no patamar atual poderá gerar perdas de empregos formais, além de alimentar a inflação e os gastos públicos.

O efeito de uma indexação dessa no restante dos preços na economia é poderoso.

Minha faxineira, por exemplo, reajustou o preço do seu serviço em 2015 de R$ 100 para R$ 120. E ontem me comunicou mais um aumento: agora o valor é de R$ 150. Ou seja, no espaço de 12 meses, o preço da faxina subiu 50%.

Essa, provavelmente, deve ser a reação em cadeia dos agentes econômicos no Brasil: reajustar bem acima da inflação para se proteger da alta dos preços, num círculo vicioso.

Mas o cálculo do governo Dilma para sobreviver na transição para as eleições de 2018 talvez seja tolerar uma inflação elevada (como, aliás, tem sido a tônica da presidente) como moeda de troca para reativar a atividade econômica.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.