O provável sucessor de Joaquim Levy

O provável sucessor de Joaquim Levy

Mercado, que antes cogitava Henrique Meirelles para o Ministério da Fazenda no lugar do decorativo Joaquim Levy, agora aposta em Nelson Barbosa e teme a volta da Nova Matriz Econômica

Fábio Alves

16 de dezembro de 2015 | 12h20

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Embates com Barbosa desgastaram o atual ministro da Fazenda. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Até há pouco tempo, cogitava-se no mercado financeiro – com grande animação – que Henrique Meirelles, o ex-presidente do Banco Central no governo Lula, assumiria o Ministério da Fazenda no lugar do decorativo Joaquim Levy.

Mas isso antes do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff ser acatado por Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, levando a já depressiva atividade econômica a um estado de paralisia total.

Dilma não cedeu à pressão de seu padrinho político para trocar Levy por Meirelles e o timing dessa troca já não é mais atrativo para o ex-presidente do BC, na visão de interlocutores desta coluna.

Ser ministro da Fazenda tornou-se um cargo politicamente desejado para quem almejasse seguir os passos de Fernando Henrique Cardoso, que ao comandar a pasta e patrocinar o Plano Real acabou sendo eleito com facilidade para a Presidência da República. Mas a presidente Dilma tratou de dinamitar o prestígio desse cargo.

Levy amargou derrota atrás de derrota na sua cruzada para aprovar um ajuste fiscal que recuperasse a confiança de empresários e investidores e tirasse a economia brasileira do lamaceiro. Dilma sempre foi a ministra da Fazenda.

Como esta coluna já citou uma vez, a grande tragédia de Levy e de seu antecessor, Guido Mantega, assim como a do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, é que Dilma estudou um pouco de economia (graduada em Ciências Econômicas) para interferir decisivamente nos assuntos econômicos, mas não tanto assim para estar certa nas suas opções (afinal não chegou nem a terminar seu mestrado e doutorado na Unicamp).

O que levaria Henrique Meirelles a assumir um cargo num governo que luta para sobreviver ao processo de impeachment, com quase nenhuma margem de manobra para recuperar a economia?

Se antes do impeachment, a resistência da troca de Levy por Meirelles estava na presidente Dilma, que nunca nutriu a menor simpatia pelo ex-presidente do BC, segundo interlocutores desta coluna, agora a menor probabilidade de o sucessor de Levy ser Meirelles deve-se a um possível desinteresse deste último em assumir um cargo que já não lhe trará nenhum ganho político.

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

A leitura é de que Dilma sempre agiu como ministra da Fazenda. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

“Quem vai querer assumir um time a uma rodada de ser rebaixado?”, indagou um importante gestor de fundos de São Paulo.

Ganha força nas bolsas de apostas, pelo menos nos últimos dias, o nome de Nelson Barbosa, hoje ministro do Planejamento, para assumir o cargo de Levy.

Até porque se Dilma sobreviver ao impeachment será graças a um esforço do Partido dos Trabalhadores de não entregar a Presidência mesmo sem grande simpatia a Dilma. O preço dessa fatura (sobrevivência de Dilma) será ditar regras para a condução da economia.

Se Levy amargou várias derrotas sem o PT ter ainda a presidente sob seu controle, o que faria ele num governo em que Dilma se tornaria uma espécie de Rainha Elizabeth, reina mas não manda.

E hoje na equipe econômica quem representa os interesses do PT? O ministro Nelson Barbosa, segundo vários interlocutores desta coluna. Foram, aliás, os embates com Barbosa que desgastaram o atual ministro da Fazenda.

O último capítulo dessa disputa foi a decisão da presidente de enviar ao Congresso proposta de redução da meta fiscal em 2016 de 0,7% para 0,5% do PIB. Foi mais uma derrota para Levy e uma vitória para Barbosa.

A proposta também prevê a possibilidade de abatimento da meta de R$ 30,58 bilhões de investimentos se a arrecadação tributária novamente surpreender para baixo, o que zeraria essa meta fiscal em 2016.

Para vários analistas ouvidos por esta coluna, alas do PT, em particular o ministro Barbosa, considerariam que dado o tamanho da recessão da economia brasileira não há mais espaço para cortes de gastos sociais e de investimentos.

Nesse contexto, se Barbosa vier, de fato, assumir o Ministério da Fazenda, a reação do mercado será negativa.

Isso porque aumentaria a probabilidade de um dos cenários mais negativos para a trajetória da dívida bruta brasileira: a presidente Dilma sobrevive ao impeachment e dá uma guinada heterodoxa na economia, retrocedendo a muitos pilares da tão criticada Nova Matriz Econômica, que ela adotou durante o seu primeiro mandato.

Se esse cenário se materializar, muitos analistas – incluindo os das agências de classificação de risco – vão refazer suas projeções de dívida bruta em relação ao PIB até o fim de 2018, quando teoricamente acabaria o governo Dilma.

Sem falar que a nomeação de Barbosa deflagraria de imediato uma posição defensiva de investidores estrangeiros em relação ao Brasil, com reflexo significativo no fluxo de capital para o País, a não ser se a remuneração dos ativos brasileiros disparar para compensar o risco de se conviver novamente com a Nova Matriz Econômica.

* Fábio Alves é jornalista do Broadcast, serviço de informações financeiras em tempo real do Grupo Estado

Tendências: