O que pode fazer o dólar recuar para R$ 3

O que pode fazer o dólar recuar para R$ 3

Ambiente externo 'neutro' e um fluxo positivo de notícias do cenário doméstico no curto prazo podem contribuir para segurar a cotação da moeda norte-americana

Fábio Alves

25 de março de 2015 | 15h06

dolar

Sem novas derrotas do governo no Congresso – como a do projeto aprovado na terça-feira que obriga a presidente Dilma Rousseff a regulamentar em 30 dias lei que reduz dívida de Estados e municípios – nem pressão vinda do exterior sobre apostas para o início da alta dos juros americanos, fatores domésticos podem fazer a cotação do dólar recuar no curto prazo.

Com um ambiente externo “neutro”, um fluxo positivo de notícias do cenário doméstico no curto prazo poderá fazer o dólar cair até R$ 3,00 nas próximas semanas, na opinião de um executivo financeiro brasileiro em Nova York em conversa com esta coluna.

Entre os catalisadores para uma valorização do real está a divulgação do balanço auditado da Petrobrás, o qual poderá evitar um rebaixamento da classificação de risco não somente da estatal como também do rating soberano brasileiro.

Cresceu a expectativa no mercado financeiro em relação à divulgação das demonstrações financeiras da Petrobrás ainda nesta semana, contendo, inclusive, o cálculo do tamanho das perdas com corrupção, o que impedia até agora essa divulgação e ameaçava a avaliação de crédito do Brasil.

Com a publicação do balanço auditado da Petrobras, e a consequente retirada de uma grande incerteza sobre o Brasil no radar dos investidores, o fluxo de capital estrangeiro pode voltar com mais força ao País, sendo uma pressão de baixa na cotação do dólar.

O noticiário negativo de indicadores econômicos e da crise política que atingiu o governo Dilma desempenhou um papel importante na desvalorização mais forte do real frente ao dólar em comparação com outras divisas internacionais na recente onda de fortalecimento da moeda americana. Na quinta-feira passada, dia 19, por exemplo, o dólar bateu R$ 3,30 após Dilma negar que irá fazer uma reforma ministerial no curto prazo.

Mesmo com a derrota de ontem na Câmara, o governo vem conseguindo avançar no apoio de parlamentares no Congresso para aprovação das medidas provisórias do ajuste fiscal, em particular as que restringem os benefícios trabalhistas e previdenciários.

Assim, outro catalisador para um ganho do real frente ao dólar no curto prazo poderão ser notícias relacionadas às contas públicas, em particular o resultado primário do Governo Central em fevereiro e o anúncio do valor a ser contingenciado do Orçamento aprovado na semana passada.

Quanto ao resultado primário, depois da divulgação ontem da arrecadação de tributos no mês passado, apenas uma carta na manga do Tesouro Nacional poderá surpreender analistas e investidores com um superávit em fevereiro, cujo número deve ser divulgado na próxima semana. E é bem provável que o Tesouro tente surpreender o mercado no lado da receita – ao anunciar alguma arrecadação forte de dividendos, concessões ou participação especial – ou do lado da despesa.

Segundo a Receita Federal, a arrecadação em fevereiro cresceu apenas 0,5% em termos reais sobre igual mês de 2014. Se o Tesouro divulgar a receita em rubricas como dividendos ou concessões sem aumento real bem maior do que o 0,5% registrado pela arrecadação de tributos (que correspondem a 95% das receitas federais), os gastos do Governo Central no mês passado não poderiam crescer mais que 3% em termos nominais para se atingir um equilíbrio nas contas públicas, tendo como base o resultado primário de fevereiro de 2014.

Mesmo se o Tesouro deixar de divulgar alguma receita não prevista pelos analistas e investidores, com base na arrecadação de tributos divulgada ontem, ainda assim poderá surpreender o mercado com uma contenção maior dos gastos, ou seja, sem crescimento nominal das despesas, lançando mão inclusive do adiamento de alguns desembolsos.

Essa estratégia faz parte da margem de manobra considerada natural para um ou dois meses, e não da prática constante que era criticada pelo mercado no primeiro mandato de Dilma. Com isso, o resultado primário de fevereiro do Governo Central poderia ser um superávit que venha agradar a investidores e analistas.

E por que a equipe econômica adotaria tal estratégia?

Para chegar ao anúncio do contingenciamento do Orçamento com mais força se quiser fazer um corte substancial que injete confiança no mercado, disse a esta coluna um economista de uma instituição estrangeira.

“O melhor argumento para fazer um contingenciamento significativo é a execução mais severa das contas públicas mês a mês”, argumentou. “Se a equipe econômica fizer um superávit em janeiro e em fevereiro, terá mais força para anunciar um contingenciamento maior de despesas.”

Corre entre analistas e investidores a estimativa de um contingenciamento entre R$ 60 bilhões e R$ 80 bilhões. Para interlocutores desta coluna, um corte próximo de R$ 60 bilhões dos gastos para 2015 não chegaria a decepcionar o mercado, pois seria considerado realista.

Um número mais próximo a R$ 80 bilhões provocaria uma reação bastante positiva de investidores e analistas, com impacto nos preços dos ativos, especialmente sobre a cotação do dólar.

* Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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