O sequestro do Banco Central

Filme do primeiro mandato se repete: liberação de crédito pelos bancos públicos, política monetária menos apertada e promessas que não dependem do Planalto

Fábio Alves

29 de janeiro de 2016 | 12h07

Ao ler os relatórios de várias instituições financeiras analisando a ata da última reunião do Copom, divulgada ontem, fica a impressão de que uma parte dos economistas considera que o trabalho do Banco Central foi dado por encerrado em 2016, ao sinalizar uma prolongada manutenção dos juros básicos, enquanto outra parcela acredita que a missão do BC vai, de fato, começar ainda este ano, quando voltar a cortar a taxa Selic.

Tudo isso independentemente da tarefa de controlar a inflação e as expectativas inflacionárias.

A justificativa do BC de que incertezas externas exercerão pressão desinflacionária, assim como a ampliação do hiato do produto resultado do aprofundamento da recessão econômica, segue uma retórica típica de quando Guido Mantega era ministro da Fazenda fazendo previsões otimistas, enquanto a economia brasileira descia ladeira abaixo:

Torcer para que a realidade venha dar a sustentação a hipóteses otimistas – no caso do BC, a de queda da inflação via recessão, preço do petróleo e desaceleração da China. Em inglês, a expressão exata dessa postura do presidente do BC, Alexandre Tombini, é “wishful thinking”.

“Curiosamente, se ocorrerem os riscos na esfera externa que o Banco Central alerta, muito provavelmente o real vai se depreciar, e talvez substancialmente”, comentou a esta coluna um renomado economista brasileiro. “Não é óbvio que o impacto disto sobre a inflação seja desinflacionário, ainda mais porque o principal impacto positivo da queda dos preços do petróleo não está sendo transmitido aos preços domésticos diante da situação crítica da Petrobrás.”

Aliás, aqueles que hoje dizem que a decisão do BC de não subir juros foi acertada aludem para a postura recente do Federal Reserve (Fed), do Banco Central Europeu (BCE) e, principalmente, para a do Banco do Japão (BoJ).

Hoje, o BoJ adotou uma estratégia agressiva de estímulo monetário ao introduzir taxas negativas de juros: cortou a taxa paga sobre recursos financeiros que bancos comerciais deixam depositados no BC japonês, além dos compulsórios exigidos, para -0,1%, de 0,1% anteriormente.

Ou seja, num mundo ameaçado pela queda do preço do petróleo e pela desaceleração mais forte da economia chinesa, os principais bancos centrais estão adotando ações de afrouxamento e não de aperto monetário.

O Fed divulgou um comunicado “dovish” (menos inclinado ao aperto monetário) que acompanhou a sua decisão de não subir os juros americanos, após ter elevado a taxa básica em dezembro pela primeira vez desde 2006.

Todavia, é preciso fazer a seguinte pergunta: estão o Fed, o BCE e o BoJ enfrentando uma inflação de dois dígitos e expectativas inflacionárias em franca aceleração?

Não. Aliás, o problema desses países é a ameaça de deflação.

E como lá os preços internacionais do petróleo são transmitidos para os preços dos combustíveis, os fatores externos citados pelo BC brasileiro fazem muito mais sentido para a mudança de postura do Fed, do BCE e do BoJ em direção a uma política monetária mais frouxa do que vinha sendo sinalizado até então.

Já no Brasil, a guinada surpreendente do BC na última reunião do Copom deixou a impressão em muitos do mercado que houve ingerência do Palácio do Planalto na decisão de não subir os juros e de sinalizar na ata que as tais incertezas externas provavelmente impedirão a retomada do ciclo de aperto monetário.

Porém, essa inação do BC terá um custo: já há analistas, embora uma minoria, prevendo que a inflação poderá bater dois dígitos novamente neste ano. As expectativas inflacionárias não param de piorar, como se observou nas últimas pesquisas Focus, do BC.

Assim, o sentimento de interlocutores desta coluna é de que o BC foi sequestrado pela nova postura heterodoxa – um retorno da Nova Matriz Econômica – que o governo Dilma Rousseff assumiu após a saída de Joaquim Levy do Ministério da Fazenda.

Não à toa que o receituário da nova equipe econômica no comando hoje é: liberação de créditos pelos bancos públicos para estimular a economia, política monetária menos apertada do que o necessário para reancorar as expectativas inflacionárias e promessas que nada dependem do Palácio do Planalto (aprovação de reformas no Congresso).

Esse filme já foi visto no primeiro mandato e o resultado, também.

A diferença é que agora não se pode contar nem mais com o BC para amenizar o estrago na confiança dos agentes econômicos.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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