O termômetro do emprego e os juros nos EUA

Mercado aguarda o dado de criação de vagas formais para medir a probabilidade de o BC dos EUA rever a trajetória de elevação dos juros

Fábio Alves

04 Fevereiro 2016 | 15h51

O número de criação de vagas formais de trabalho nos Estados Unidos (ou “payroll” como esse indicador é referido em inglês) deve começar a gerar uma reação entre investidores e analistas bem diferente de quando o preço do petróleo não tinha caído tão rápida e significativamente ou quando a desaceleração da economia chinesa não tinha deflagrado um maior tombo dos mercados globais há alguns meses.

Nesta sexta-feira, será divulgado o payroll para o mês de janeiro, com o consenso das estimativas indicando a criação entre 180 mil e 185 mil postos de trabalho nos EUA.

Até há pouco tempo, esse indicador servia de termômetro para o mercado embutir nas taxas futuras de juros a aposta de um ciclo de aperto de maior ou menor magnitude.

Hoje, o mercado deve reagir ao payroll mais como um balizador do risco de uma eventual desaceleração ou recessão da economia americana, elevando a probabilidade de o Fed revisar para baixo a sua trajetória para a alta dos juros básicos neste ano (quatro elevações em comparação com apenas uma única alta precificada pelos investidores).

Isso mudou desde a última ata do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, em inglês) e declarações de diretores do Federal Reserve (Fed), sinalizando uma menor disposição de subir os juros americanos na mesma magnitude indicada quando do início do ciclo atual de aperto monetário, que começou em dezembro passado.

Ou seja, antes da turbulência causada pela queda do preço do petróleo ou dos indicadores mais fracos de atividade econômica na China, por exemplo, se o número que for divulgado amanhã viesse em linha ou melhor do que o consenso (180 mil a 185 mil vagas), o mercado iria precificar imediatamente uma postura mais “hawkish” (inclinado a subir mais os juros) do Fed.

Agora, talvez não mais.

Um número do payroll em linha ou melhor do que as estimativas não fará o mercado voltar a precificar mais altas de juros do que as taxas dos contratos futuros indicam, isto é, uma única elevação pelo Fed neste ano.

Isso porque outros indicadores de atividade e índices de mercado financeiro passaram a ser informações mais valiosas para a decisão do Fed do que o payroll.

Foi isso que muitos interlocutores desta coluna interpretaram da declaração feita ontem por William Dudley, presidente do Fed de Nova York.

“Reconhecemos que os acontecimentos no mercado financeiro e o fluxo de dados econômicos podem estar em processo de alterar a perspectiva de crescimento e risco daqui pra frente”, disse Dudley. “Uma coisa que eu acho que podemos dizer com mais confiança é que as condições financeiras são consideravelmente mais apertadas que eram quando fizemos a reunião de dezembro.”

Para interlocutores desta coluna em Nova York, ao falar sobre condições financeiras mais apertadas, Dudley estava se referindo a queda dos índices das bolsas de valores americanas, o que torna muito mais difícil para as empresas se financiarem via emissões de ações.

No acumulado do ano até ontem, o índice S&P 500 cai 6,43% e o índice Dow Jones Industrial Average, cede 6,25%.

Outra razão para o mercado não atribuir mais tanto peso ao número de criação de vagas de trabalho é que, como esse é um indicador que mostra com defasagem a situação da economia, uma eventual desaceleração ou risco de recessão irá aparecer primeiro em dados como vendas no varejo ou encomendas de bens duráveis.

Isto é, enquanto a economia americana pode já estar sofrendo os efeitos de um dólar mais forte frente às moedas de seus principais parceiros comerciais ou uma contração das condições financeiras que inibiriam alavancar o investimento e consumo, os dados do mercado de trabalho podem ainda mostrar uma robustez retardada.

Todavia, se já tão cedo o payroll de janeiro e próximos meses começar a vir muito abaixo do esperado, a reação do mercado será mais negativa, podendo precificar até uma interrupção do ciclo de aperto monetário pelo Fed, o banco central americano.

Só para recapitular: a economia americana criou 292 mil empregos em dezembro, acima da previsão, de 210 mil novos postos. Os números de novembro e de outubro foram revisados em alta. Com isso, 2015 se tornou o segundo melhor ano na criação de postos de trabalho desde 1999, com média de 221 mil vagas criadas por mês. A taxa de desemprego, por sua vez, ficou em 5,0% no mês passado.

Ou seja, se o payroll a ser divulgado amanhã vier mais fraco também não será uma surpresa, dado o forte desempenho desse indicador em dezembro.

Mas o fato é que os investidores já vão olhar o payroll com outras lentes – não mais como um termômetro de aperto monetário.

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