Ouvidos moucos às projeções do BC

Ouvidos moucos às projeções do BC

Terá o BC sucesso em reduzir as projeções do IPCA deste ano ao ressaltar o tamanho da recessão que abate a economia brasileira?

Fábio Alves

17 Fevereiro 2016 | 12h27

A defesa do Banco Central da sua decisão de não mais subir a taxa básica de juros tem focado na forte desaceleração da atividade econômica, o que, na tese da autoridade monetária, deverá fazer com que a inflação não ultrapasse o teto da meta, de 6,5%, neste ano.

Sabe-se, agora que as projeções do BC começaram a vazar na imprensa, que a autoridade monetária prevê uma contração de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano, em comparação com estimativa anterior de queda de 1,9%.

Terá o BC sucesso em reduzir as projeções do IPCA deste ano ao ressaltar o tamanho da recessão que abate a economia brasileira?

A mediana das estimativas para a inflação de 2016 da pesquisa Focus, do BC, segue piorando, agora em 7,61%, após ser revisada para cima pela sétima semana consecutiva.

Foto: Joedson Alves/Reuters

Reunião entre Dilma e Tombini soou ao mercado como uma intervenção política no processo decisório do BC. Foto: Joedson Alves/Reuters

Na opinião de um economista-chefe de um banco estrangeiro, as expectativas de inflação continuam piorando por três motivos:

Primeiro, os números continuam surpreendendo para cima (como, por exemplo, o IPCA de janeiro); segundo, depois de passar várias semanas sinalizando um aumento de juros, o BC surpreendentemente abortou a alta, levando os agentes econômicos a concluírem que a autoridade monetária está disposta a aceitar uma taxa de inflação mais alta; e, terceiro, as perspectivas com relação à política fiscal continuam piorando dia a dia.

“A inflação resiste em ceder porque a indexação da economia é muito alta (exemplo: salário mínimo) e também porque as expectativas de inflação continuam subindo devido aos fatores mencionados acima”, diz o economista do banco estrangeiro.

Já um experiente economista paulista observa que a piora da política fiscal (mais recentemente, a conversa da “banda fiscal”) coloca mais pressão potencial sobre o câmbio e, consequentemente, sobre a inflação.

Segundo ele, as expectativas inflacionárias seguem elevadas também reflexo da guinada às vésperas da última reunião do Copom, com a razão alegada e na esteira de uma reunião entre a presidente Dilma Rousseff e Alexandre Tombini, que soou claramente ao mercado como uma intervenção política no processo decisório do BC, o que não ajuda a credibilidade do Copom.

Além disso, ninguém sabe qual é o real tamanho do hiato do produto, diz o economista paulista.

“Inegavelmente o hiato está crescendo, mas resta a dúvida sobre seu nível (pode ser que apenas recentemente ele tenha entrado no campo negativo/recessivo) e/ou sua velocidade (a atividade corrente desaba, mas o tal do PIB potencial também desacelera, reduzindo o ritmo de abertura do hiato)”, explica a fonte. “Diante da piora das expectativas nos últimos anos e da inflação elevada nesse mesmo período, aumentando a inércia, o hiato perdeu poder explicativo sobre o comportamento da inflação, em favor da importância maior das expectativas e, principalmente, da inércia.”

Esse economista acrescenta que algumas indicações anedóticas apontam para uma tentativa de preservação de margem por várias empresas mesmo às custas de “market-share”, o que garante uma maior resiliência dos preços, limitando sua queda mesmo diante da redução da demanda.

Na opinião de um economista-chefe de um fundo de investimento carioca, o BC segue subestimando a inflação neste ano. Para ele, a forte desaceleração da atividade – incluindo a nova projeção do PIB de queda de 3% neste ano – não terá o impacto desejado sobre a inflação, especialmente a de serviços, a qual continua bastante resistente.

“O PIB provavelmente caiu 4% em 2015, mas o IPCA foi uma grande decepção, com a inflação de serviços praticamente estável”, observa o economista carioca. “Imaginava-se que o hiato do produto influenciaria mais a inflação de serviços.”

Para ele, dificilmente o IPCA de 2016 ficará abaixo de 6,5% como ver indicando o BC.

Nesse aspecto, os analistas não estão embutindo uma queda mais forte da inflação de serviços mesmo com a nova projeção do PIB do BC, especialmente em razão da inércia.

Conforme os cálculos de Flávio Serrano, economista sênior do Haitong, a inflação de serviços acumulada em 12 meses desacelerou de 8,12% em dezembro para 7,9% em janeiro.

“Não é muito relevante, mas é um sinal de desaceleração”, diz Serrano. Ele projeta um IPCA de 6,9% em 2016.

“A impressão que eu tenho é que por pressão superior, o Copom tenta construir um discurso desinflacionário que pouca gente no mercado acredita”, afirma o experiente economista paulista ouvido mais acima na coluna. “Porém, com esse discurso cada vez mais claro, o mercado passa apostar no corte da Selic, a despeito dos fundamentos não recomendarem tal movimento.”

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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