Pesquisa Focus antecipa governo Temer

As projeções dos analistas para indicadores macroeconômicos, na pesquisa semanal Focus, do Banco Central, passaram já a refletir as expectativas do mercado em relação a um eventual governo Michel Temer.

Fábio Alves

02 de maio de 2016 | 11h19

Com a esperada aprovação no plenário do Senado, cuja votação deve ocorrer na próxima semana, da admissibilidade do impeachment da presidente Dilma Rousseff, levando ao seu afastamento por 180 dias, os analistas começam a traçar um cenário mais benigno para a economia brasileira sob um novo presidente.

Esse movimento incipiente já pode ser observado na pesquisa divulgada hoje pelo BC.

“O mercado já começou a incorporar as expectativas do governo Temer”, disse a esta coluna um gestor de carteira de um fundo de investimentos com sede no Rio de Janeiro. “As variáveis que mais devem ser afetadas são IPCA e PIB, ambas a partir de 2017.”

A mediana das estimativas para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2017 foi revisada para cima pela segunda semana consecutiva. Os analistas esperam agora um crescimento de 0,4% do PIB em 2017 em comparação com expansão de 0,3% na semana anterior. Isso apesar de a estimativa para o PIB de 2016 ter se deteriorado pela décima quinta semana consecutiva, agora registrando uma contração de 3,89% da economia brasileira neste ano.

Em relação ao IPCA – índice oficial de inflação -, as estimativas para 2016 foram revisadas para baixo pela oitava semana consecutiva, marcado agora uma alta de 6,94%. Ainda assim, essa estimativa está acima do teto da meta de inflação, de 6,5%. Para 2017, os analistas preveem uma inflação de 5,72%, numa redução dessa projeção pela quarta semana consecutiva. E para 2018, a previsão de inflação foi reduzida de 5,20% para 5,0%.

Em conversa com esta coluna, um renomado economista brasileiro destaca que boa parte da projeção para a inflação reflete, na realidade, uma tendência que já estava em curso.

“Todo mundo já tinha a visão de que a inflação corrente iria desacelerar e as expectativas cederem, pois elas são governadas pela inflação corrente”, explicou o renomado economista. “Obviamente, o câmbio mais apreciado é um elemento fundamental para isso.”

Nesse sentido, explicou o economista, a apreciação da moeda brasileira traduz a melhora da percepção de risco – com a queda nas taxas dos contratos de credit default swaps (CDS) – com a expectativa de mudança de governo.

“Mas o hiato negativo do produto já estava batendo na inflação de serviços”, ressaltou.

O cenário macroeconômico traçado nas estimativas contidas na pesquisa Focus poderá apresentar uma alteração mais significativa à medida que os nomes da equipe econômica forem anunciados.

O mercado dá como certa a indicação de Henrique Meirelles para comandar o Ministério da Fazenda. Com ele, analistas e investidores apostam na adoção de uma política fiscal mais apertada.

Ainda há espaço para surpresas em termos da magnitude desse ajuste, ou seja, quais as primeiras medidas a serem anunciadas. Isto é, se o novo governo tentará algo mais ambicioso ou se vai perseguir a aprovação pelo Congresso de medidas politicamente mais viáveis.

“Se o conjunto de ações for realmente ousado – e o governo Temer tem base parlamentar para aprová-lo – então poderemos ter um rali nos preços dos ativos”, afirmou o renomado economista ouvido acima. “Por exemplo, aprovarem um teto para o crescimento anual do déficit fiscal.”

Também não está embutida nas estimativas da Focus a reação à escolha do novo presidente do BC.

Entre os nomes mais cotados, o mercado ainda os separa entre falcões e pombos, isto é, entre aqueles mais austeros no combate à inflação e mais inclinados ao aperto monetário e aqueles mais dispostos a cortar juros.

Essa distinção, todavia, não leva em conta que o próximo presidente do BC dependerá da trajetória fiscal para conduzir a política monetária, independentemente da postura monetária que o mercado lhe atribui com base em declarações ou projeções de relatórios a clientes.

Por enquanto, os analistas ouvidos pela Focus projetam uma queda de 1 ponto porcentual para a taxa Selic ao fim de 2016, encerrando a 13,25%. Para 2017, a estimativa agora é de que os juros básicos vão fechar o ano a 11,75%.

Se o Senado, de fato, afastar a presidente Dilma por 180 dias na próxima semana, Temer e Meirelles deverão anunciar as primeiras medidas de ajuste fiscal e também os nomes que integrarão a nova equipe econômica.

Será a partir deste evento que as projeções do mercado poderão embutir maior otimismo ou mais cautela.

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