Pessimismo exagerado retarda a recuperação

Pessimismo exagerado retarda a recuperação

Crise política aumenta incertezas sobre a aprovação ou não das medidas do ajuste fiscal no Congresso, o que dificulta a retomada do crescimento

Fábio Alves

07 de abril de 2015 | 11h21

Dilma cai nas pesquisas de avaliação e confiança vem em queda há meses e não está tão claro que tenha atingido o fundo do poço

Dilma: confiança  na economia em queda sem indicação de que tenha atingido o fundo do poço (Foto:AP)

A queda mais forte e acelerada dos índices de confiança de empresários e de consumidores, próximos dos níveis observados durante a crise financeira mundial de 2008 e 2009, pode estar mostrando uma fotografia bem mais pessimista da economia brasileira do que poderia endossar a realidade dos indicadores.

Um possível exagero no pessimismo de empresários e consumidores é preocupante, pois pode retardar mais ainda a recuperação da economia, via fraqueza no investimento e consumo privados.

“Até agora, não tivemos – e não parece que vamos ter – um tombo do Produto Interno Bruto (PIB) na magnitude registrada no quarto trimestre de 2008, mas a frustração com uma desaceleração da economia no ciclo atual mais prolongada do que o esperado, além de uma perspectiva muito ruim para o primeiro e segundo trimestres de 2015, está afetando os índices de confiança”, explicou a esta coluna o superintendente adjunto para Ciclos Econômicos da FGV/Ibre, Aloisio Campelo.

No quarto trimestre de 2008, o PIB brasileiro registrou queda de 4,1% sobre o trimestre anterior. No primeiro trimestre de 2009, a economia brasileira recuou 2,2% sobre o quarto trimestre de 2008. Já em 2014, o PIB cresceu 0,1% ante 2013, conforme a nova metodologia das Contas Nacionais do IBGE. No quarto trimestre de 2014, a economia brasileira teve expansão de 0,3% contra o trimestre imediatamente anterior.

Embora os números do PIB ainda não tenham registrado uma contração tão forte em comparação com o auge da crise financeira mundial, os últimos resultados dos índices de confiança mostram um abalo semelhante.

“O problema agora é que a economia está estagnada há um ano, além de a perspectiva ser muito ruim para os dois primeiros trimestres de 2015, ou seja, a desaceleração está mais prolongada em comparação com a crise financeira mundial, que, no Brasil, durou praticamente apenas dois trimestres, os últimos três meses de 2008 e o primeiro trimestre de 2009”, argumentou Campelo.

A trajetória dos índices de confiança de empresários e consumidores no auge da crise financeira mundial foi de um V, ou seja, esses índices afundaram e se recuperaram muito rapidamente, o que facilitou a retomada da economia brasileira.

Agora não: a confiança já vem em queda há vários meses e não está tão claro que tenha atingido o fundo do poço.

Em março, o Índice de Confiança de Serviços (ICS) caiu 12,1% ante fevereiro, no terceiro recuo consecutivo, batendo 82,4 pontos, o menor nível de toda a série histórica do índice apurado pela FGV, iniciada em junho de 2008.

Já o Índice de Confiança da Indústria (ICI) caiu 9,2% em março ante fevereiro, passando de 83,0 para 75,4 pontos, menor nível desde janeiro de 2009, quando estava em 74,1 pontos. Na comparação com março de 2014, o ICI recuou 21,2%.

E o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) recuou 2,9% em março ante fevereiro, para 82,9 pontos, o menor patamar da série histórica, iniciada em setembro de 2005.

É importante observar que, durante a crise de 2008 e 2009, o consumidor brasileiro tinha uma capacidade maior de se endividar do que no ciclo atual e o mercado de trabalho recuperou-se rapidamente de um baque nas contratações.

Agora, a criação de vagas de trabalho vem registrando um arrefecimento há vários meses e a inflação, que gera temor nos consumidores sobre renda disponível para gastar, segue em alta.

O risco é de os índices de confiança retroalimentarem o pessimismo, o qual reflete não apenas uma conjuntura de atividade e de inflação mais difícil, como também um ambiente político adverso para o governo Dilma Rousseff.

“Há segmentos do setor empresarial que acreditam que a crise política pode fazer a economia levar mais tempo para se recuperar, incluindo a incerteza sobre a aprovação ou não das medidas do ajuste fiscal no Congresso”, explicou Campelo.

Além do desempenho dos últimos indicadores de atividade e a turbulência do ambiente político, contribuem para a baixa confiança dos empresários as condições mais apertadas de crédito e de taxa de juros e também o temor de racionamento de energia elétrica e água.

Por outro lado, há uma sensação de que a maré de notícias negativas na economia e na política pareceu se concentrar no primeiro trimestre de 2015, o que se refletiu na queda forte dos índices de confiança no período.

Não há como negar que a relação entre o governo Dilma e o Congresso, no âmbito das negociações para a aprovação das medidas do ajuste fiscal, melhorou em relação ao que se viu em fevereiro, principalmente depois que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, passou a negociar diretamente com os presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Também pode contribuir para uma melhora da confiança a afirmação da classificação de risco soberano do Brasil pela agência de ratings Standard & Poor’s (S&P), mantendo o País com o status de grau de investimento.

Tais fatores podem, ao menos, estabilizar os índices de confiança, mas não se pode descartar novas quedas se houver, no futuro próximo, derrotas importantes do governo no Congresso ou alguma notícia negativa em termos de atividade e de inflação.

* Fábio Alves é jornalista do Broadcast

 

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