Sem racionamento, mercado deve rever projeção pessimista de PIB

Sem racionamento, mercado deve rever projeção pessimista de PIB

Chuvas mais fortes em fevereiro e março fortaleceram a disposição política do governo de não racionar energia, medida que analistas davam como certa e que provocaria queda de 2% no PIB de 2015

Fábio Alves

27 de março de 2015 | 13h59

Represa de Sobradinho: chuvas acima do esperado afasta possibilidade de racionamento (Foto: Estadão)

Represa de Sobradinho: chuvas acima do esperado afasta possibilidade de racionamento (Foto: Estadão)

Os analistas e economistas com as projeções mais pessimistas para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2015 poderão ser forçados a melhorar suas estimativas se o governo Dilma Rousseff tomar uma decisão política e não técnica para o racionamento de energia elétrica neste ano.

Conforme a mais recente pesquisa semanal Focus, do Banco Central, os analistas revisaram para baixo, pela décima segunda semana consecutiva, a estimativa para o PIB neste ano, esperando agora uma contração de 0,83% da economia brasileira. Mas as projeções mais pessimistas embutem a adoção de um racionamento entre 5% e 10% no abastecimento de energia elétrica. Para esses analistas, o PIB cairia 2% em 2015.

As chuvas mais fortes em fevereiro e março, em particular na região Sudeste, fortaleceram a disposição política do governo em não adotar um racionamento, mesmo se o nível dos reservatórios das hidrelétricas chegar ao patamar crítico de segurança para o sistema elétrico de 10% em novembro.

O governo está contando não apenas com a melhora das chuvas, como também uma redução voluntária do consumo em razão, entre outros fatores, dos reajustes das tarifas de energia elétrica e campanhas de economia.

Nesta sexta-feira, 27, o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chipp, descartou a necessidade de racionamento. Segundo ele, a demanda por energia elétrica em 2015 irá crescer apenas 0,2% em relação a 2014, ao contrário de uma expansão de 3,2% na estimativa anterior.

A previsão oficial do ONS para o nível dos reservatórios das usinas do Sudeste/Centro-Oeste é de 35,2% até abril, o que descartaria a necessidade de racionamento de energia em 2015.

Na quinta-feira passada, durante audiência pública na Câmara dos Deputados, Chipp havia dito que se as campanhas de redução do consumo de energia forem bem sucedidas e conseguirem que os consumidores economizem 0,6%, será possível atravessar o ano de forma que o nível dos reservatórios das hidrelétricas atinja 10% em novembro, nível considerado o mínimo necessário para garantir o abastecimento de energia.

Segundo um renomado economista de um banco europeu, em conversa com esta coluna, houve analistas que fizeram sua projeção do PIB para 2015 sem racionamento (provavelmente a maioria) e outros, com racionamento. “Se não houver racionamento, é possível que aqueles que estão projetando o PIB com racionamento – com números por volta de uma queda de 2% – revisem suas projeções para cima”, explica o economista.

Por outro lado, a fonte acima ressalta que um dos motivos pelos quais o País poderá escapar do racionamento é que a atividade econômica está tão fraca que o consumo de energia está caindo, além, obviamente, do aumento nas tarifas.

“Assim, mesmo sem racionamento, o cenário não é muito animador, portanto acho que dificilmente veremos uma melhora nas projeções de PIB a curto prazo”, argumenta o economista do banco europeu. “Eu acho que os níveis de confiança de consumidores e empresários já caíram tanto que mudanças de projeção do PIB na Focus não terão efeito significativo.”

Segundo um economista-chefe de outra instituição financeira europeia, a decisão política de não adotar um racionamento forçará os analistas com projeção de PIB mais negativas a retirarem esse fator de seus cálculos, o que poderá melhorar a estimativa do desempenho para a economia brasileira neste ano.

“Alguns analistas já davam o racionamento em 2015 como certeza”, diz a fonte acima. Por entender que essa é uma decisão mais política do que técnica, o economista acima decidiu não incluir até o momento o racionamento de energia elétrica na sua projeção de PIB para 2015, mas apenas como “fator de risco” à sua estimativa, que é, por enquanto, melhor do que o consenso dos analistas.

“Mas o consenso das projeções para o PIB de 2015 podem não melhorar tanto no curto prazo porque a atividade econômica está bem mais fraca no início deste ano do que o esperado, a despeito de acontecer ou não o racionamento”, pondera o economista.

Na opinião de um grande investidor brasileiro, parte da retomada dos reservatórios está ligada a mais chuvas do que esperado. Mas parte importante é menor demanda, seja porque o preço subiu, seja porque a atividade está em forte retração. “Se o PIB desse ano for revisado para cima, será que a retomada prevista para os reservatórios será a mesma?”, indaga o investidor.

Segundo ele, se o País chegar ao fim do período seco perto do limite de segurança, isso cria incertezas para a necessidade ou não de racionamento em 2016.

“Então o pessoal técnico recomenda algum racionamento e estímulo a menor demanda agora para ter certeza que não haveria risco de racionamento no próximo ano, mas políticos maximizam o curto prazo e nessas condições não farão racionamento”, argumenta. “Uma coisa é não ter de fazer racionamento porque a atividade está fraca este ano; outra é com economia em recuperação em 2016, haverá oferta de energia suficiente para não comprometer a velocidade de retomada sem gerar pressões inflacionárias?”

Sem uma melhora substancial dos reservatórios das hidrelétricas, não adotar o racionamento em 2015 talvez não evite essa medida no ano que vem, quando a demanda deve voltar a crescer.

* Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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