Europa e Japão desaceleram e ameaçam retomada dos EUA

Europa e Japão desaceleram e ameaçam retomada dos EUA

Números da economia chinesa e tensão política por causa da Ucrânia agravam preocupações com a economia global

Fábio Alves

14 Agosto 2014 | 15h05

Pedrestres no distrito financeiro de Shangai: dados da economia chinesa agravam preocupações com economia global (AFP)

Após a decepção com o Produto Interno Bruto (PIB) da zona do euro e do Japão no segundo trimestre deste ano, além de indicadores piores do que o esperado na China, cresce o risco de, se a fraqueza persistir nessas três importantes economias, a incipiente recuperação observada nos Estados Unidos e no Reino Unido ser abortada.

Uma nova derrapagem no crescimento da economia mundial nos próximos trimestres também coloca novos dilemas e escolhas para os principais bancos centrais do mundo.

A Eurostat divulgou nesta quinta-feira, 14, que o PIB da zona do euro estagnou no segundo trimestre deste ano, enquanto o consenso das estimativas de analistas era de um leve crescimento de 0,1%. Mais importante ainda: a economia da Alemanha, o motor da zona do euro, contraiu-se 0,2%, uma retração maior do que esperado. E esse resultado, obviamente, ainda não embute qualquer impacto da tensão geopolítica envolvendo Ucrânia e Rússia, especialmente aos eventuais efeitos de uma retaliação do governo russo às sanções impostas à sua economia.

Na quarta-feira, 13, o Japão informou que sua economia teve uma contração de 1,7% no segundo trimestre deste ano em comparação com os três meses anteriores, a maior queda desde o primeiro trimestre de 2011. Essa contração é resultado do impacto do aumento do imposto sobre vendas adotado a partir de abril, o que afetou os gastos de famílias e empresas japonesas.

Na China, as vendas de moradias nos primeiros sete meses do ano recuaram 10,5% na comparação com o intervalo igual de 2013, para 2,98 trilhões de yuans (US$ 484 bilhões).

Outro dado que surpreendeu os analistas foi o de novos empréstimos bancários por instituições financeiras chinesas. Em julho, esses empréstimos somaram 385,2 bilhões de yuans (US$ 62,6 bilhões), o que representou forte queda na comparação com os 1,08 trilhão de yuans concedidos em junho.

Na sua última avaliação da economia mundial feita em julho, o Fundo Monetário Internacional (FMI) projetou um crescimento de 1,1% do PIB da zona do euro em 2014, de 1,6% para a economia do Japão e de expansão de 7,4% da China. Diante dos indicadores recentes, a estimativa de crescimento da zona do euro em 2014 pelo FMI começa a parecer otimista demais.

E teria essa recente desaceleração da atividade econômica no Japão, na China e na zona do euro já sido completamente previsto pelos investidores?

“Olhando para as taxas de retornos (yields) historicamente baixos de títulos públicos em economias desenvolvidas, é difícil argumentar que certos riscos ao crescimento global estão adequadamente precificados”, disse Benjamin Mandel, economista para os Estados Unidos do Citigroup em Nova York, em conversa com esta coluna.

Para ele, Japão, China e zona do euro enfrentam desafios distintos e “substanciais”. Em razão disso, explicou Mandel, essas economias apresentam riscos com viés de baixa ao crescimento global.

Na opinião do economista sênior do banco ING, James Knightley, os indicadores econômicos fora dos EUA e do Reino Unido têm vindo bastante fracos, especialmente os da China, que surpreenderam para baixo.

“Os riscos são, claramente, de um ambiente mais fraco em termos de crescimento global”, disse Knightley, em conversa com esta coluna, de seu escritório em Londres.

E o que os bancos centrais do Japão ou o BCE (Banco Central Europeu) poderão fazer para reverter uma tendência de desaceleração da economia que possa aumentar os riscos de deflação?

“O Banco do Japão provavelmente esperará para ver melhor o que acontece com o impacto do imposto sobre vendas e o BCE esperará até dezembro, pelo menos, para avaliar o impacto das medidas que adotou em junho”, argumentou Knightley.

Só para lembrar, na reunião de junho, o BCE anunciou redução do juro básico de 0,25% para 0,15% ao ano, além da adoção de um programa de financiamento bancário da ordem de 400 bilhões de euros chamado de TLTRO (“Targeted Long-Term Refinancing Operations”, ou operações de refinanciamento de longo prazo direcionadas), com o intuito de reaquecer o crédito para as empresas e as famílias da zona do euro.

Todavia, quando o BCE adotou as medidas acima em junho, a crise envolvendo Ucrânia e Rússia não tinha entrado na fase mais crítica nem a desaceleração da economia da região tinha ficado tão nítida, especialmente no tocante aos índices de confiança do consumidor e dos empresários.

Assim, se os indicadores econômicos da zona do euro continuarem surpreendendo para baixo, crescerá fortemente a pressão sobre Mario Draghi, presidente do BCE, para agir e adotar um programa de afrouxamento quantitativo (QE, em inglês). Da mesma forma, o Banco do Japão não conseguirá ficar de braços cruzados se o consumo continuar muito fraco, reacendendo os temores da deflação.
* Fábio Alves é jornalista do Broadcast