‘Pibinho’ ressuscita fantasma da estagflação

Fábio Alves

03 de junho de 2014 | 16h51

SÃO PAULO – A perda de fôlego da economia brasileira no primeiro trimestre deste ano deflagrou uma rodada de revisão para baixo nas projeções do Produto Interno Bruto (PIB) de 2014 e reacendeu o debate sobre se o Brasil já não estaria imerso num processo de estagflação, ou seja, quando uma economia apresenta um problema estrutural de baixo crescimento econômico combinado com elevada inflação.

Segundo o IBGE divulgou na semana passada, o PIB brasileiro cresceu 0,20% no primeiro trimestre deste ano em relação ao quarto trimestre de 2013. Na comparação com o primeiro trimestre de 2013, o PIB avançou 1,90% no primeiro trimestre deste ano.

Na última pesquisa semanal Focus, divulgada ontem pelo Banco Central, a projeção de crescimento da economia brasileira foi reduzida de 1,63% para apenas 1,5% em 2014. Para 2015, a estimativa dos analistas também foi cortada, de 1,96% para 1,85%. Por outro lado, o IPCA de 2014 estimado é de 6,47%.

O Brasil está, de fato, imerso num ambiente de estagflação?

Na opinião de um economista brasileiro de “buy side” em Nova York, a resposta é sim. Nas contas dele, desde que Dilma Rousseff assumiu o governo em 2011, o crescimento anual médio do País ficará por volta de 1,9% nos quatro anos da gestão da presidente (levando em conta a aposta dele de que o PIB terá expansão de 1,3% neste ano e que em 2013 o crescimento foi de 2,5%, conforme revisão do IBGE). Por outro lado, ressalta a fonte acima, a inflação anual média no período (levando em conta a projeção da Focus) será de 6,2%.

Em conversa com esta coluna, um dos mais respeitados economistas brasileiros diz que a resposta à pergunta acima é mais complexa do que um simples “sim ou não”.

“No sentido de que o crescimento está baixo e a inflação está elevada, o Brasil está sim num cenário de estagflação”, diz ele. “Contudo, a estagflação é um fenômeno perene, não reversível; nesse sentido, a resposta é não”.

O que está acontecendo, segundo esse economista, é que o mercado de trabalho ainda está muito apertado e o governo segue alimentando a demanda, enquanto o BC tenta agir na direção contrária a do resto do governo.

“Tudo o que é sensível a juros e às condições financeiras e monetárias está perdendo vigor, como o crédito, os setores de bens de consumo duráveis (em particular os automóveis) e a indústria, que está pelo terceiro trimestre consecutivo com dados negativos, ou seja, em recessão”, explica o economista. “Em contrapartida, o único componente do PIB que continua robusto e crescendo são os gastos do governo”.

Já um economista-chefe de uma grande instituição financeira diz que as estimativas de inflação não estão caindo por diversos motivos. Entre os quais, ele cita a expectativa de um câmbio mais fraco – umbilicalmente ligada à aposta de alta do “yield” (taxa de retorno) dos títulos do Tesouro americano -, de aumentos expressivos das tarifas de energia elétrica e também pela sensação de que a economia estava crescendo pouco por restrição de oferta e não por fraqueza da demanda.

“Acho que essa leitura mais recente de que a demanda é que está bem mais fraca vai sim ter consequências baixistas nas projeções de inflação, principalmente se aparecer com mais clareza no mercado de trabalho”, explica o economista acima. “Se isso acontecer, não estaríamos num cenário de estagflação, mas de desinflação cíclica que, por sua vez, exigiria menos aperto monetário”.

Em nota a clientes, o economista-chefe para América Latina do banco Goldman Sachs, Alberto Ramos, disse que, ao analisar o resultado das contas nacionais divulgadas hoje pelo IBGE, o Brasil está registrando três anos consecutivos de crescimento “sub-par”, abaixo de 3%, com o PIB observando uma expansão média trimestral “medíocre” de 0,39% e anual de 1,9% nos últimos 12 trimestres.

“Isso reafirma a visão de que os principais obstáculos ao crescimento no Brasil são estruturais e domésticos mais do que cíclicos e externos”, afirmou Ramos, que tem uma estimativa de crescimento de 1,3% do PIB e de uma inflação de 6,4% em 2014.

E como sair desta armadilha de inflação elevada e crescimento muito baixo?

Para o respeitado economista brasileiro ouvido mais acima, é preciso haver uma maior coordenação das políticas fiscal e monetária – a primeira está acelerando uma parte da economia e a segunda, segurando outra parte.

“Num ambiente de mercado de trabalho apertado, os gastos do governo tipicamente são muito mais focados em bens não ‘tradables’ (comercializáveis), o que pressiona a inflação a permanecer elevada, mesmo com o BC segurando o resto da economia com a política monetária”, explica.

Assim, mesmo que não se possa afirmar que o Brasil esteja imerso numa estagflação de caráter mais permanente e de difícil reversão, ao menos é possível dizer que o País encontra-se num ambiente com indícios de estagflação – baixos investimentos e produtividade resultando em crescimento decepcionante, com mercado de trabalho apertado pressionando a inflação.

Já o economista brasileiro de “buy side” em Nova York acredita que apenas com um choque de credibilidade e uma correção dos rumos na política econômica é que o Brasil conseguirá sair da armadilha do baixo crescimento e de inflação elevada. Ele não vê o crescimento acelerando e a inflação cedendo em 2015.

“É preciso o governo ancorar as expectativas inflacionárias, inclusive subindo os juros, para tentar trazê-las de volta para o centro da meta”, diz a fonte.

O corolário das análises sobre o PIB do primeiro trimestre é que a composição do crescimento é o fator mais preocupante.

Entre os destaques negativos estão a taxa de investimento de 17,7% do PIB, a menor para primeiros trimestres desde 2009; a retração de 2,1% na formação bruta de capital fixo (FBCF) no primeiro trimestre ante o trimestre anterior; e a queda de 0,8% no PIB industrial, de 3,3% das exportações e de 0,1% no consumo das famílias no mesmo período.

Sem a ajuda dos gastos do governo, os quais aumentaram 0,7% sobre o quarto trimestre de 2013, e do bom desempenho do setor agropecuário, com alta de 3,6% no período, o resultado geral do primeiro trimestre causaria uma turbulência não somente no mercado financeiro, mas também no cenário político, em meio a uma acirrada campanha eleitoral.

 

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