Pimenta no acarajé do governo Dilma

Pimenta no acarajé do governo Dilma

Alvo central da Operação Acarajé, a 23ª fase da Lava Jato, o marqueteiro do PT João Santana teve a prisão decretada pela Justiça; Dilma deve enfrentar novo período de turbulência

Fábio Alves

22 Fevereiro 2016 | 11h11

Um novo período de turbulência para Dilma Rousseff terá sido deflagrado hoje após a Justiça Federal do Paraná ter decretado a prisão de João Santana, o marqueteiro responsável pelas campanhas eleitorais do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006, e da própria presidente em 2010 e em 2014.

Santana é o alvo central da Operação Acarajé, a 23ª fase da Lava Jato. O inquérito investiga supostos pagamentos de R$ 7 milhões ao marqueteiro pela construtora Odebrecht em contas “offshore” em paraísos fiscais.

A reação inicial de interlocutores desta coluna dá bem a dimensão do que a nova fase da Lava Jato poderá assumir em termos de impacto político para o governo Dilma.

“O João Santana entra na cozinha da Dilma”, comentou a esta coluna um renomado analista político com larga experiência em pesquisas de opinião. “Se teve alguém que conseguia orientar a presidente e esteve mais próximo dela do que qualquer outra pessoa nas suas campanhas eleitorais foi ele.”

Como então a presidente Dilma vai conseguir explicar não ter conhecimento de como o seu marqueteiro fosse pago, indaga o analista.

Marqueteiro foi responsável pelas campanhas eleitorais de Lula, em 2006, e de Dilma, em 2010 e 2014. Foto: André Dusek/Estadão

Marqueteiro foi responsável pelas campanhas eleitorais de Lula, em 2006, e de Dilma, em 2010 e 2014. Foto: André Dusek/Estadão

No momento em que o PT e o ex-presidente Lula deixaram de ser os únicos sob os holofotes do escrutínio público a denúncias de propina e contas no exterior, com as declarações feitas recentemente pela ex-namorada do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a nova fase da Lava Jato joga o foco novamente e com força no PT, no ex-presidente Lula e agora em Dilma.

A Operação Acarajé era o que a oposição precisava neste momento para trazer de volta uma agenda negativa contra o governo Dilma.

Indagado por esta coluna sobre as implicações da decisão da Justiça em decretar a prisão de João Santana, o novo líder do DEM na Câmara dos Deputados, Pauderney Avelino (AM), disse que “isso comprova que há envolvimento também da própria campanha eleitoral da presidente Dilma no episódio”.

Para o líder do DEM, fica difícil Dilma alegar ignorância ou desconhecimento. Na visão de Avelino, a investigação da campanha eleitoral de Dilma e de Michel Temer pelo Tribunal Superior Eleitora (TSE) somente ganha força com o desdobramento da Lava Jato.

“Há comprovação – está nos autos da Lava Jato que já estão no TSE – da existência de recursos repassados no exterior pela Odebrecht para a campanha dela”, afirma Avelino. Segundo ele, os líderes da oposição vão se reunir amanhã, terça-feira, para definir qual o posicionamento que deverão tomar em conjunto sobre a nova fase da Lava Jato.

Por enquanto, o estrago para a popularidade da presidente Dilma da nova fase da Lava Jato vai depender, em parte, do destaque que o assunto terá na imprensa, em particular no noticiário de TV, nos próximos dias.

Isso porque, em termos de impacto eleitoral, são mais explosivas e com maior potencial de estrago as investigações sobre se o ex-presidente Lula seria, de fato, o dono do sítio em Atibaia e do tríplex no Guarujá, cujas obras de reformas teriam sido custeadas por empreiteiras investigadas na Lava Jato.

Pesquisa inédita do Ibope, divulgada hoje, mostra que 61% dos entrevistados afirmaram que não votariam de jeito nenhum em Lula para presidente. É a maior taxa de rejeição entre seis presidenciáveis testados pelo Ibope. Foi também o único nome entre os presidenciáveis pesquisados a registrar aumento na taxa de rejeição.

E a nova fase da Lava Jato deveria ser a maior fonte de preocupação para a presidente Dilma: enquanto o foco do noticiário negativo ficou em Lula, e mais recentemente em FHC, perdeu o fôlego o movimento do impeachment.

Dependendo dos desdobramentos da Operação Acarajé e da prisão de João Santana, seu marqueteiro e homem de confiança, a presidente corre um risco de ver o movimento do impeachment ganhar força nas ruas e no Congresso.