Piora do emprego é pedra no caminho da reeleição

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Piora do emprego é pedra no caminho da reeleição

Números divulgados pelo Ministério do Trabalho podem trazer problemas para a campanha da presidente Dilma nas eleições de outubro deste ano

Fábio Alves

17 de julho de 2014 | 15h14

Mercado de trabalho aquecido favoreceu a avaliação do governo Dilma, mas Caged mostra problemas à frente (Foto: André Dusek/Estadão)

SÃO PAULO – A criação de 25.363 vagas de trabalho em junho foi muito abaixo do que os mais pessimistas do mercado financeiro poderiam imaginar.

Na realidade, foi o pior número de geração líquida de emprega para um mês de junho desde 1998. E isso terá impacto não somente macroeconômico, como também político.

O resultado, divulgado nesta quinta-feira, 17, pelo Ministério do Trabalho, já começou também a afetar os preços das ações e de outros ativos financeiros.

A Bovespa, que havia ensaiado uma alta acima de 0,8% no meio do dia, voltou a cair depois da divulgação do número do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

A mediana das estimativas de 15 analistas, consultados pelo AE Projeções, apontava para um saldo líquido de 82 mil novos empregos formais no mês passado. Assim, a decepção de analistas e investidores é grande. O temor é de que a economia brasileira esteja em franca desaceleração.

Em maio, foram criadas 58.836 vagas, resultado bem abaixo das 105.384 carteiras assinadas em abril último e dos 123.836 postos abertos em junho de 2013.

E por que o número do Caged passou a ter um peso tão grande para investidores e analistas?

Primeiro, por uma perspectiva de política monetária, uma vez que ontem o Copom manteve a taxa Selic em 11%, mas, principalmente, repetiu ipsis litteris o texto do comunicado divulgado após a decisão, com a expressão “neste momento”.

O interessante é que em reuniões anteriores, a expressão “neste momento” foi exclusivamente interpretada como um viés “hawkish”, ou seja, que o Banco Central poderia seguir subindo juros.

O “neste momento” foi lido como um sinal de que o BC também poderá cortar a taxa Selic caso a atividade desacelere ainda mais. E, nesse ponto, o mercado de trabalho, em particular o número de criação de vagas do Caged, vai ser crucial na tomada de decisão do BC sobre os próximos passos da política monetária.

Queda na criação de empregos pelo Caged poderá reforçar as apostas de que o Copom venha a cortar os juros em vez de mantê-los inalterados por um longo tempo em razão das pressões sobre as expectativas de inflação.

O segundo efeito ao se analisar o dado do Caged é sua implicação macroeconômica, ou melhor, que impacto terá sobre o mercado de crédito.

Isso porque um enfraquecimento mais significativo do mercado de trabalho, isto é, na geração líquida de empregos, poderá levar a um aumento da taxa de inadimplência.

Só para lembrar, a inadimplência de pessoas físicas ficou em 4,5% em maio, segundo os últimos dados do BC, depois de ter batido no piso de 4,3% em fevereiro deste ano.

E por fim, o terceiro efeito do número do Caged é o impacto político, uma vez que a presidente Dilma Rousseff vem defendendo a sua gestão da economia ao citar que, mesmo quando o mundo cortou 60 milhões de vagas desde o início da crise financeira mundial em 2008, o Brasil vem criando mais empregos.

Portanto, o número do Caged, se começar a fraquejar mais do que o anteriormente previsto, poderá ser usado politicamente pelos adversários de Dilma na campanha para a eleição presidencial em outubro.

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