Por impeachment, oposição quer obstruir votações na Câmara

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Por impeachment, oposição quer obstruir votações na Câmara

Após o PSDB ter rompido oficialmente com Eduardo Cunha, a oposição estuda aumentar a pressão sobre o peemedebista, forçando-o a tomar uma posição a favor do pedido de impeachment de Dilma

Fábio Alves

16 de novembro de 2015 | 15h44

Foto: André Dusek/Estadão

Foto: André Dusek/Estadão

Após o PSDB ter rompido oficialmente com o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, a oposição estuda aumentar a pressão sobre o peemedebista, forçando-o a tomar uma posição a favor do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff:

Os principais partidos de oposição (PSDB, DEM, PPS e PSB) estão considerando adotar como estratégia de pressão tentar obstruir as votações ou pelo menos atrapalhar o andamento dos trabalhos na Câmara como forma de tirar a legitimidade de Cunha como presidente da Casa.

Ou seja, a oposição partiria agora para uma “fase dois” na estratégia pelo impeachment, abandonando uma posição de diálogo com Cunha para uma explícita batalha no dia a dia da Câmara.

Assim, o rompimento oficial do PSDB deixaria de ser apenas um gesto retórico ao dizer que Cunha não tem mais condições de comandar a Câmara – como acabou sendo no anúncio dos líderes tucanos na quarta-feira passada -, mas um instrumento mais efetivo de pressão sobre o peemedebista.

Em conversa com esta coluna, um dos deputados da oposição disse que sua expectativa é de que os partidos oposicionistas anunciem tal estratégia a partir da semana que vem.

Como não têm votos suficientes para obstruir as votações da Câmara, os líderes da oposição esperam convencer partidos como a Rede Sustentabilidade e o PSOL, que protocolaram a representação contra Cunha no Conselho de Ética, a se juntarem a essa estratégia, além de atrair deputados de outros partidos da base aliada que gostariam de ver a cassação do presidente da Casa.

Todavia, não será uma decisão fácil para a Rede ou o PSOL, uma vez que obstruir as votações na Câmara para tirar a legitimidade de Cunha como presidente da Casa é uma estratégia intrinsecamente ligada à decisão do peemedebista de aceitar ou rejeitar um dos pedidos de impeachment de Dilma.

A Rede e o PSOL, apesar de condenarem Cunha, não apoiam o impeachment da presidente Dilma. Assim, participar de obstrução das votações da Câmara será um divisor de água para esses dois partidos ou para qualquer um da base aliada.

Como se sabe, Cunha vinha postergando qualquer decisão sobre os pedidos de impeachment numa forma de manter tanto o governo quanto a oposição ao seu favor contra um processo de cassação de seu mandato.

Na semana passada, porém, o PSDB decidiu romper com Cunha depois das entrevistas dele sobre as contas na Suíça. Os tucanos consideraram “desastrosas” as explicações de Cunha sobre sua ligação com as contas na Suíça e indicaram que o PSDB votará contra o peemedebista no Conselho de Ética.

Para alguns interlocutores desta coluna, o rompimento do PSDB não foi causado apenas pela reação negativa das entrevistas de Cunha, mas pela percepção de que ele havia decidido se aliar ao governo após contar com os votos do PT e da base aliada no Conselho de Ética.

De qualquer maneira, os líderes da oposição querem ir além de anunciar apenas que vão votar contra Cunha em um processo de cassação.

Se não conseguirem obstruir as votações na Câmara, ao não ter os votos suficientes, os partidos oposicionistas vão tentar atrapalhar ao máximo o andamento dos trabalhos, tornando a liderança de Cunha questionável.

No cálculo da oposição, se essa estratégia der certo, Cunha poderá se sentir pressionado o bastante para aceitar o pedido de impeachment de Dilma e dividir o foco das atenções da mídia e do público, hoje concentrado nas denúncias de ligação do peemedebista com o esquema de pagamentos de propina no Petrolão.

Aliás, deixar de avançar o processo de impeachment e assim dividir o holofote das notícias negativas foi o cálculo errado de Cunha, segundo um dos deputados da oposição.

Como novas denúncias sobre sua ligação com os recursos depositados nas contas da Suíça e as propinas no âmbito do Petrolão colocam Cunha em situação cada vez mais delicada, os líderes da oposição esperam que o peemedebista repense sua decisão em aliar-se com o governo no tema impeachment.

Ou seja, se não foi por bem – esperando o apoio “espontâneo” de Cunha -, os partidos de oposição acreditam que inviabilizar a posição dele como presidente da Câmara possa dar resultado quanto ao processo de impeachment.

Como os partidos de oposição carecem de votos suficientes para essa estratégia ser bem-sucedida, ainda é uma incógnita prever como Cunha reagirá a essa nova pressão.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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