Potencial de contágio da crise na Grécia

Fábio Alves

16 de junho de 2015 | 14h05

A crise na Grécia, com crescente probabilidade de calote da dívida ou de anúncio de controle de capital, está dominando o noticiário financeiro na imprensa internacional mais do que um contágio generalizado nos mercados mundiais de juros e de câmbio.

Mas qual o potencial de estrago que o pior cenário da situação na Grécia poderá causar?

Um renomado economista brasileiro disse a esta coluna que, por mais debatida e noticiada que tem sido a crise na Grécia, os investidores não precificaram ainda um default grego e uma consequente saída do país da zona do euro. Para este economista, o pior cenário no desfecho da crise grega terá impacto nos preços dos ativos, via aversão a risco.

Um catalisador para os preços dos ativos será a reunião do Eurogrupo – que reúne os ministros de Finanças da zona do euro – nesta quinta-feira, para discutir a crise. Mas a data final para a saga grega é 30 de junho, quando o programa de socorro financeiro à Grécia termina e o país tem de fazer um pagamento de 1,54 bilhão de euros ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

Ontem (dia 15), após o fracasso das negociações entre os líderes gregos e a Comissão Europeia durante o fim de semana, circularam rumores de uma reunião de emergência dos líderes políticos europeus e também de um iminente anúncio de controle de capital pela Grécia. Tais rumores geraram uma fuga dos títulos da dívida dos países periféricos do euro, o que fez alguns analistas debaterem o risco de contágio.

Em conversa com esta coluna, um estrategista de câmbio de um grande banco europeu, baseado em Londres, disse que um anúncio de controle de capital afetará negativamente a cotação do euro, pois isso sinalizaria aos investidores que a probabilidade da saída da Grécia do euro aumentaria consideravelmente.

“A questão é qual a magnitude desse impacto sobre o apetite a risco global”, ponderou o estrategista. “Certamente, o impacto não seria desprezível, porém menor do que se viu em 2010”, acrescentou. Segundo ele, uma das razões para efeitos mais limitados de um desfecho mais negativo é a menor posição dos investidores em ativos gregos, particularmente depois do auge da crise da dívida europeia de 2010 a 2012, além das várias medidas adotadas pelas instituições europeias – como o Banco Central Europeu – para prover liquidez e solvência num cenário de estresse agudo.

Além disso, a posição técnica de investidores no mercado de câmbio atualmente limitaria efeitos mais fortes de um desfecho negativo da crise grega. Hoje, é relativamente grande a posição vendida (levando-se em conta os contratos em abertos nos mercados futuros) do euro frente ao dólar, lembrou o estrategista europeu.

Já um estrategista de câmbio de uma instituição financeira americana, baseado em Nova York, argumentou a esta coluna que outro impacto a ser considerado é o aumento da volatilidade nas moedas emergentes, a qual vem se mantendo em níveis bastante baixos nos últimos meses.

“A incerteza sobre o que vai acontecer com a negociação entre a Grécia e seus credores é combustível para a volatilidade”, disse a fonte acima. Em razão disso, muitos investidores estão mantendo posições vendidas em moedas emergentes diante da expectativa de uma correção nos níveis de volatilidade se ocorrer um desfecho negativo da situação na Grécia.

E o que pode se esperar da crise grega nos próximos dias?

“Se a reunião do Eurogrupo e os dias seguintes derem errado, poderemos ver controles de capitais sendo anunciados antes de um esforço final para se chegar a um acordo na semana que vem”, disseram David Hensley e Joseph Lupton, analistas do banco J.P. Morgan, em nota a clientes. “Permanece nosso cenário base que a Grécia fará concessões suficientes para se chegar a um acordo.”

Já o estrategista-chefe de câmbio da corretora japonesa Nomura Securities, Jens Nordvig, disse que está bastante claro agora que a zona do euro está muito mais resiliente a choques internos do que em 2010. Segundo ele, mesmo num cenário de “Grexit”, ou saída da Grécia do euro, a teoria de efeito dominó de um contágio incontrolável para o resto do bloco provavelmente se provará nada mais do que alarmismo, parcialmente alimentado pelos líderes europeus para manter intacta a zona do euro e reforçar suas posições de negociação com os gregos.

“Nos últimos meses, temos argumentado que a Grécia tem um impacto cada vez menor sobre a zona do euro e os mercados globais”, disse Nordvig, em nota a clientes. “Obviamente, os mercados ainda prestam atenção à Grécia, mas os efeitos são de uma magnitude menor do que durante a crise do euro, de 2010 a 2012.”

E no universo dos mercados emergentes, as moedas de países do Leste Europeu e as divisas consideradas “high beta”, de maior volatilidade, entre elas o real, poderiam sofrer mais inicialmente a um desfecho mais negativo para a negociação entre a Grécia e seus credores. Antes disso, um anúncio de controle de capitais poderá ter um efeito psicológico negativo sobre os mercados globais.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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