Precificando o governo Temer

O efeito manada, que parece agora tomar conta do processo de impeachment a favor da oposição, também está influenciando o otimismo com eventual ajuste e com a nova equipe econômica

Fábio Alves

14 de abril de 2016 | 14h06

O efeito manada começou antes do esperado: depois do Partido Progressista (PP), ontem foi a vez de o PSD, do ministro Gilberto Kassab, abandonar o governo Dilma Rousseff, abrindo a porteira para que parlamentares indecisos ou os que iriam até votar contra o impeachment mudassem de posição.

Com o trem caminhando nessa velocidade para aprovar o impeachment na Câmara, dificilmente pode se esperar que o Senado reverta a decisão dos deputados. Assim, muitos investidores trabalham agora com o afastamento da presidente Dilma por volta do dia 10 ou 11 de maio, quando se espera a votação pelo Senado se aceita ou não abrir o processo autorizado pela Câmara.

Por enquanto, os preços dos ativos reagem ao placar do impeachment e ao noticiário contra o governo e a favor do impedimento da presidente. O Banco Central vem intensificando sua intervenção, via swaps reversos, para segurar a queda do dólar.

A dúvida que fica agora é: quando os investidores vão começar a reagir ao “governo Temer”?

Isso porque o vice-presidente Michel Temer, se suceder a presidente Dilma no comando do País, terá pouquíssimo tempo para conquistar a confiança de investidores e empresários, sem falar no apoio da sociedade. Entre o Senado votar o afastamento por 180 dias de Dilma e concluir o julgamento do impeachment, Temer terá que adotar medidas econômicas impopulares e apresentar um ministério que lhe garantam a sobrevida para além da votação final do Senado.

A escolha da equipe econômica será, portanto, fundamental para conquistar legitimidade e capital político. Em especial, terá impacto no mercado e na sociedade, sem falar no Congresso, o nome do ministro da Fazenda e do presidente do Banco Central.

Sob o impacto desse anúncio, o mercado prestará atenção às primeiras medidas para arrumar a casa:

Serão viáveis se necessitarem passar pelo crivo do Congresso?

Podem gerar uma reação mais forte de movimentos sociais, em especial os sindicatos, resultando em greves?

Iria Temer adotar um ajuste amargo em meio a uma profunda recessão ou resistirá ele a tentação de afagar uma população machucada pelo desemprego e inflação?

Até o momento, os investidores estão operando com base na euforia de tirar a presidente Dilma e o PT do poder. Ou seja, o mercado vê como certo que se Dilma escapar do impeachment o risco é de ela dobrar a aposta na heterodoxia, tentando ressuscitar a economia através de uma fórmula desgastada, via estímulo ao crédito e ao consumo. Se Dilma sobreviver a esse processo, provavelmente as estimativas para a queda do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro seriam revisadas para um recuo além de 4% em 2016.

Assim, os preços dos ativos não refletem ainda qualquer probabilidade de decepção com eventuais anúncios de medidas ou de nomes pelo esperado governo Temer.

O efeito manada, que parece agora tomar conta do processo de impeachment a favor da oposição, também está influenciando o otimismo com eventual ajuste e com a nova equipe econômica.

Até aqui, a sinalização dada por Temer vem agradando os investidores. Mas resta saber se quando o comando estiver nas mãos dele, o que será feito ou anunciado na pratica irá respaldar o que o mercado especula ser as intenções.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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