Qual o PSDB, cara pálida?

Assim como o PMDB, o PSDB é marcado por disputas de líderes, divididos em praticamente três grupos

Fábio Alves

22 Outubro 2015 | 13h50

Seria a perda de fôlego recente no risco de impeachment, comemorada nos bastidores pelo Palácio do Planalto, resultado apenas do revés no STF quanto ao rito do processo na Câmara dos Deputados e também do enfraquecimento de Eduardo Cunha após as denúncias ligadas às contas na Suíça?

O quanto disso cabe ao PSDB?

Assim como o PMDB, na teoria o principal partido “aliado” da presidente Dilma Rousseff, o PSDB é marcado por disputas de líderes, divididos em praticamente três grupos. Mas ao contrário dos peemedebistas, os tucanos vêm se mostrando incapazes de superar as rixas internas em prol de um objetivo maior. O PMDB é bem mais pragmático.

Para muitos, há o PSDB do governador Geraldo Alckmin, que preferiria ver a presidente Dilma Rousseff sangrar até 2018 e, assim, conseguir tempo para viabilizar sua candidatura presidencial.

Há o PSDB do senador José Serra, que estaria disposto a apoiar o impeachment, vendo assumir o poder o vice-presidente, Michel Temer, e contribuir com o peemedebista ao aceitar um cargo de ministro num governo pós Dilma.

Há o PSDB do senador Aécio Neves, derrotado nas eleições presidenciais de 2014, que parece oscilar ora a favor de novas eleições – via, por exemplo, uma decisão do TSE, que abriu investigação das contas da campanha da chapa Dilma e Temer em 2014 – ora em declarações pontuais a favor do impeachment.

Essa disputa fratricida dos tucanos acaba prejudicando os objetivos dos que no partido defendem o impeachment da presidente Dilma. Isso porque retira do PSDB uma unidade de discurso e de ações quer seja com o PMDB, quer seja com outros partidos de oposição.

Como estabelecer negociações mais críveis com o maior partido de oposição em torno de um governo pós Dilma, caso haja sucesso no processo de impeachment, se o PSDB parece estar eternamente engalfinhado em disputa interna?

Aliás, esse cabo de guerra fica visível na posição do partido em relação a Eduardo Cunha. Em cima do muro, o partido parece dividido entre o arroubo daqueles que querem mais determinação em exigir a renúncia de Cunha da Presidência da Câmara e a cautela daqueles que nutrem a esperança de que o peemedebista aceite um dos pedidos de impeachment de Dilma.

“Encontrar o equilíbrio em forçar a agenda negativa, ou seja, buscar o impeachment da presidente Dilma sem publicamente assumir um acordo com Eduardo Cunha é o dilema que o PSDB está tentando resolver para ter um papel mais importante nesse processo”, disse Rafael Cortez, analista político da Tendências Consultoria em conversa com esta coluna.

Para ele, o avanço do processo de impeachment não passa tanto pelo PSDB, mesmo que o partido estivesse unido em torno de um objetivo e de um líder.

“A oposição é minoritária”, comentou Cortez. “O impeachment só é viável politicamente se os partidos da base aliada migrarem e adotarem um comportamento oposicionista e a influência do PSDB nesse processo é tênue.”

Segundo ele, o desafio para o impeachment também é de natureza jurídica.

Todavia, a falta de uma coesão do PSDB em oferecer uma perspectiva viável num eventual cenário pós Dilma, caso um processo de impeachment avance no Congresso, dificulta uma possível migração de partidos “aliados” para a oposição.

Quem na base aliada está descontente com a forma de governar da presidente Dilma vai seguir qual PSDB?

O que quer ver a presidente apenas sangrar até 2018? Ou o PSDB que aceitaria fazer um pacto com o PMDB num governo Michel Temer? Ou o que quer avançar uma agenda negativa e tentar inviabilizar o mandato de Dilma no judiciário?

Ao contrário do que aconteceu com o impeachment de Fernando Collor, a oposição conseguiu chegar a um pacto para oferecer uma opção viável de governabilidade pós Collor, via Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Agora, não.

Nesse sentido, em qual dos três grupos do PSDB se encaixaria FHC?

“O Fernando Henrique não se encaixa num desses três grupos”, argumentou Cortez. “No limite, ele faz o papel de tentar criar uma unidade num partido marcado por líderes regionais, mas com dificuldade de construir uma estratégia política nacional consistente no longo prazo.”

Diferentemente do ex-presidente Lula, que se coloca como um ator partidário mais presente no curto prazo, FHC acaba tendo uma influência menor no PSDB ao tentar construir uma estratégia de médio e longo prazo para os tucanos, disse Cortez.

Assim, sem unidade e coesão fica difícil antever o PSDB como um interlocutor de peso nas negociações em torno de um processo de impeachment.

A questão que fica é: levará quanto tempo para emergir um novo líder capaz de forçar um pacto entre os caciques regionais do partido?

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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