Quando Marina começar a falar…

Quando Marina começar a falar…

Mercado financeiro aguarda o tom do discurso da candidata para saber se ela tem chances de crescer ou se os 21% no DataFolha refletem o calor das emoções dos últimos dias

Fábio Alves

18 de agosto de 2014 | 12h35

Marina no enterro de Campos: analistas especulam o que vai acontecer quando ela abrir a boca (AFP)

O que mais chamou a atenção de um dos interlocutores desta coluna, ao repercutir o resultado da pesquisa Datafolha hoje, foi o que ele chamou de “extraordinário pragmatismo” demonstrado por Marina Silva não somente desde o anúncio da morte de Eduardo Campos, na quarta-feira, 13, até então o candidato do PSB, como também no velório e enterro do ex-governador de Pernambuco, realizados em Recife.

Aliás, a imagem de Marina em cima do caminhão de bombeiros ao lado do caixão do ex-governador, juntamente com a viúva Renata Campos e os filhos, marcou alguns analistas ouvidos hoje.

E reside nesse pragmatismo a avaliação das implicações da pesquisa Datafolha e o que esperar nas próximas semanas, uma vez que a grande questão é: qual será o discurso a ser adotado por Marina quando confirmada como candidata do PSB?

Será o mais radical de tempos como candidata do Partido Verde (quando obteve 20 milhões de votos em 2010) em questões como a do “desenvolvimento com respeito ao meio ambiente”, que aterroriza o agronegócio, ou será o tom de oposição mais moderado ao governo Dilma que
Eduardo Campos adotou na campanha e que ela não ousou a desautorizar publicamente?

E qual dos dois eleitorados (o do PV ou mesmo Rede Sustentabilidade versus o do PSB) ela vai alijar assim que começar a tornar pública sua plataforma de governo quando a propaganda eleitoral na TV começar, no dia 19?

O levantamento do Datafolha foi a campo entre os dias 14 e 15 de agosto, quando a tragédia do acidente aéreo que matou o ex-governador de Pernambuco dominava as manchetes de jornais, revistas, rádios e TVs. Além disso, o noticiário da imprensa deu um espaço grande às negociações para a sucessão de Campos como candidato do PSB à Presidência da República, com Marina Silva – apontada como provável escolha do partido – tendo grande destaque.

A Pesquisa Datafolha publicada nesta segunda-feira, 18, mostra a presidente Dilma Rousseff com 36% das intenções de voto, contra 20% do candidato do PSDB, Aécio Neves, e 21% de Marina Silva. No último levantamento do Datafolha em que Marina aparecia como candidata, em abril, ela teve 27% das intenções de voto, contra 39% de Dilma e 16% de Aécio.

Assim, pode-se dizer que, no calor da comoção nacional e do espaço na mídia que recebeu, a intenção de voto a favor de Marina no Datafolha de hoje atingiu um espectro ideológico mais amplo, desde os eleitores mais próximos de um discurso do PV ou da Rede Sustentabilidade até os que preferem uma plataforma de oposição mais moderada.

O fato de Marina não ter roubado votos de Dilma nem de Aécio na pesquisa divulgada hoje pode ser recebido como um grande alívio para o PT e o PSDB. A ex-ministra do Meio Ambiente conseguiu herdar toda a intenção de voto que Campos tinha (de 8%) mais uma parcela dos eleitores que iriam votar branco ou nulo, além dos que disseram não saber em quem votar. Nem mesmo o Pastor Everaldo (PSC) perdeu votos com a entrada de Marina na disputa.

Irá a ex-ministra do Meio Ambiente moldar o seu discurso público para se ajustar aos compromissos que terá de assumir com o PSB para conseguir ser nomeada como candidata?

Em termos de política macroeconômica, por enquanto, o assessor econômico dela, o economista Eduardo Gianetti da Fonseca, tem falado música aos ouvidos do mercado financeiro e dos empresários. Em evento a empresários na semana passada, Gianetti da Fonseca disse que há “uma forte convergência” entre o PSDB e o PSB para as políticas econômicas necessárias caso derrotem o atual governo nas eleições.

Também o discurso adotado por Eduardo Campos durante a sabatina na sede da Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) agradou e surpreendeu positivamente os empresários do setor.

A ex-ministra do Meio Ambiente, contudo, nunca veio a público dizer não somente que as palavras de Gianetti da Fonseca são suas, como também não abraçou publicamente até o momento o discurso de Campos aos empresários do agronegócio.

E é daí que residem, ao mesmo tempo, a fragilidade e a fortaleza de Marina Silva.

Para o mercado financeiro, o fato de ela ter deixado apenas Gianetti da Fonseca e Eduardo Campos falarem as posições para a macroeconomia e agronegócios pode significar que, por falta de conhecimento e experiência nessas duas áreas, Marina poderá delegar a gestão, em particular da economia, para quem entenda do assunto.

Nesse aspecto, os analistas ouvidos por esta coluna consideram algo positivo e um ponto de vantagem de Marina. Ao contrário do que avaliam, a presidente Dilma que, por ser economista de formação, tem uma mão pesada na política econômica.

A fragilidade é que o PSDB e o PT podem usar essa aparente falta de conhecimento de Marina em assuntos macroeconômicos para atacá-la durante a campanha. Seria o seu calcanhar de Aquiles.

De todo modo, será necessário ouvir o que Marina irá falar como candidata oficial do PSB e qual será o tom do seu discurso para avaliar se ela pode avançar mais ainda nas pesquisas de intenção de voto ou se os 21% de apoio foram reflexo do calor das emoções após a morte trágica de Eduardo Campos.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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