Quando o BC vai sinalizar corte de juros

Quando o BC vai sinalizar corte de juros

Desaceleração da inflação esperada para entre maio e setembro do IPCA - somada a indicadores mais fracos da atividade - deve criar uma janela de oportunidade para o BC cortar juros

Fábio Alves

05 Fevereiro 2016 | 11h55

Alexandre Tombini, presidente do Banco Central. Foto: Joedson Alves/ Reuters

Alexandre Tombini, presidente do Banco Central. Foto: Joedson Alves/ Reuters

São crescentes as apostas e informações de bastidores de que o Banco Central acabará reduzindo a taxa Selic em meados deste ano à medida que a inflação corrente ceda do patamar de dois dígitos e a desaceleração da atividade econômica siga afetando o emprego e a renda.

Do ponto de vista do mercado, é menos importante saber agora que os juros básicos voltarão a cair em meados deste ano do que quando o BC vai começar a sinalizar o início de um ciclo de afrouxamento monetário.

Isso independente do que vem acontecendo com as expectativas inflacionárias para 2016 e 2017, as quais estão em clara deterioração.

Até porque o foco do BC estará na inflação corrente, cujo pico deve ter sido no mês de janeiro. O IBGE divulgou hoje que o IPCA de janeiro fechou em alta de 1,27%, em comparação com a variação de 0,96% em dezembro de 2015. Com isso, a taxa acumulada em 12 meses bateu 10,71%.

Nos cálculos de vários analistas, os números mensais do IPCA devem cair com mais força a partir de maio. Aliás, entre maio e setembro deste ano, a inflação medida pelo IPCA deve ficar bem abaixo do índice observado desde meados do ano passado. Anualizada, a inflação deverá ficar muito mais próxima do teto da meta, de 6,5%, entre maio e setembro do que se encontra hoje, acima de dois dígitos.

Na visão do mercado, sempre foi uma crença do BC de que uma desaceleração significativa da inflação corrente tem uma influência grande em trazer para baixo as expectativas inflacionárias.

São muitos os economistas que consideram que o BC dá um peso desproporcional a esse fator (desaceleração da inflação corrente reduzindo as expectativas) nas suas decisões de política monetária.

Todavia, essa desaceleração esperada para entre maio e setembro do IPCA – somada a indicadores mais fracos da atividade, em particular o aumento do desemprego, que atinge seu pico entre março e abril – deve criar uma janela de oportunidade para o BC cortar juros, especialmente se o real ficar mais estável frente ao dólar.

Nesse cenário, quando deveria o BC começar a sinalizar nos seus instrumentos de comunicação – em especial, o comunicado e a ata do Copom – e nas declarações de seus diretores a intenção de iniciar um ciclo de afrouxamento monetário?

Provavelmente será muito cedo o BC indicar isso na próxima reunião do Copom, marcada para os dias 1 e 2 de março, uma vez que não terá em mãos indicadores importantes de atividade, como o resultado do PIB do quarto trimestre de 2015, que será divulgado pelo IBGE no dia 3 de março.

Ao longo de março, o BC terá uma inflação mensal mais baixa, ao redor de 0,80% e 0,85%, caindo mais forte a partir de maio, quando o IPCA poderá ficar ao redor de 0,50%.

Entre a reunião do Copom de março e a de abril, marcada para os dias 26 e 27, o BC divulgará o Relatório Trimestral de Inflação (RTI), no qual já poderá começar a sinalizar sua intenção de cortar juros em meados deste ano, para calibrar com mais vigor no encontro do Copom no fim de abril as apostas de redução da taxa Selic.

E como seriam os sinais do início de um afrouxamento monetário?

O mais provável a partir de agora seria o BC começar, de forma incremental, introduzir uma linguagem mais “dovish” (inclinada ao afrouxamento monetário) na sua comunicação.

Um exemplo seria a sentença no parágrafo 28 da última ata do Copom:

“Para estes membros, faz-se necessário acompanhar os impactos das recentes mudanças nos ambientes doméstico e externo no balanço de riscos para a inflação, o que, combinado com os ajustes já implementados na política monetária, pode fortalecer o cenário de convergência da inflação para a meta de 4,5%, em 2017.”

Uma sinalização clara para corte de juros seria a eliminação da expressão “pode fortalecer” para uma declaração mais assertiva do tipo “fortalecerá o cenário de convergência…”

O BC já tirou na última ata o “especialmente” para caracterizar que a política monetária vai manter-se vigilante. Um próximo passo para sinalizar afrouxamento monetário será retirar a palavra “vigilante”.

Além disso, poderia acrescentar palavras como “complexo” para descrever o cenário internacional e sua dinâmica desinflacionaria. No entorno da guinada dada pela política monetária em agosto de 2011, quando houve um corte surpreendente da taxa Selic, a palavra “complexo” frequentou a comunicação do BC.

De qualquer forma, é mais forte o sentimento de analistas e investidores de que o BC não vai ficar parado por muito tempo e que seu próximo passo será a redução dos juros básicos – fazendo ou não sentido se o objetivo for ancorar as expectativas inflacionárias.

Assim, a comunicação do BC voltará a fazer preço, a despeito dos erros graves cometidos recentemente.

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