Quão breve o Copom cortará os juros

O mercado já aprendeu que ter convicção absoluta no que diz o presidente do BC, Alexandre Tombini, é perder dinheiro

Fábio Alves

29 Fevereiro 2016 | 12h55

Se não resta dúvida para a maioria dos investidores de que o Copom deverá deixar a taxa Selic inalterada em 14,25% na reunião desta semana, a convicção de que o Banco Central deixará os juros básicos parados onde estão por muito tempo não é a mesma, apesar do recente discurso mais “hawkish” (inclinado ao aperto monetário) dos diretores da instituição.

Diante do histórico errático desta gestão do BC na comunicação dos seus próximos passos, o mercado já aprendeu amargamente que ter convicção absoluta no que dizem o presidente da instituição, Alexandre Tombini, e outros diretores é perder dinheiro.

Mas há quem acredite que a decisão do Copom e o comunicado que a acompanhará, nesta quarta-feira, poderão calibrar as expectativas de quão próximo estará um eventual início de um ciclo de redução da taxa Selic.

Numa entrevista ao canal de notícias GloboNews, no último dia 18, Tombini estimou que a desinflação será de 2 pontos porcentuais neste primeiro semestre de 2016. Ele afirmou que os preços administrados já passaram por “forte correção” e que a economia, na situação que está, é uma força desinflacionaria.

Por outro lado, Tombini reiterou que o quadro inflacionário não permite falar em distensão monetária.

Na opinião de um renomado economista brasileiro, o Copom deve reiterar o que vem dizendo nas últimas duas semanas: que a manutenção da Selic em 14,25% é compatível com convergência da inflação à meta em 2017 e que não há espaço neste momento para flexibilização monetária diante do quadro de expectativas de mercado bem acima de seus objetivos.

“Como a decisão de manutenção está dada, o tom da comunicação será crucial para avaliar isso”, afirmou o economista a esta coluna. “No entanto, esse Banco Central gosta de preservar flexibilidade para enfrentar novas situações. Isto representa chance maior de queda dos juros em algum momento este ano.”

Em relatório enviado a clientes, os economistas do banco Brasil Plural, liderados por Mario Mesquita, disseram acreditar que o Copom deixará a Selic inalterada, mas que provavelmente não haverá unanimidade na decisão. Um voto unânime do Copom em manter os juros parados em 14,25% seria lido pelos economistas do Brasil Plural como “poderemos estar mais próximos de um corte de juros do que as autoridades (monetárias) tendem a admitir”.

“Por enquanto, seguimos o ‘guidance’ (orientação) oficial e acreditamos que, pesando o risco de baixa para o cenário inflacionário, colocado por uma forte recessão e uma desaceleração do crescimento global, contra os riscos de alta originários dos efeitos de segunda ordem de mudanças de preços relativos – num ambiente de alta inflação com fraca ancoragem das expectativas -, o Copom deixará a taxa básica de juros inalterada até o fim deste ano e começará a cortar no início de 2017”, escreveram os analistas do Brasil Plural.

Para o renomado economista brasileiro ouvido mais acima, uma votação dividida nesta reunião do Copom é pouco provável à luz do discurso recente dos diretores do BC.

“Dependendo do que tenha sido discutido no G-20 nesse fim de semana, é possível que a decisão pela manutenção volte a ser consensual”, afirmou. “No entanto, se tiver dissenso pró queda da Selic, seria uma forte indicação de que os juros poderiam cair já na próxima reunião, em fins de abril.”

Já os economistas do banco Itaú, em nota a clientes, preveem que o BC deverá manter a Selic em 14,25% até a reunião de julho, diante dos níveis elevados de inflação, mas começar a reduzi-la no final do ano.

“Avaliamos que a taxa de desemprego continuará subindo, e as projeções de atividade do Banco Central vão migrar para uma recessão mais intensa esse ano”, disseram os economistas do banco. “Assim, à medida que a inflação em 12 meses comece a recuar e a pressão sazonal da inflação de alimentos se dissipe, entendemos que o BC efetuará cortes nas taxas de juros.”

Os economistas do Itaú apostam que a taxa Selic deve terminar 2016 em 12,75%, com três cortes de 0,50 ponto porcentual a partir da reunião do Copom em agosto.

Diante de opiniões ainda divergentes dos analistas sobre o “timing” de um eventual início de um ciclo de afrouxamento monetário, a comunicação do Copom nesta semana poderá mexer com a precificação do mercado.