Queda da confiança na economia abala aprovação do governo Dilma

Queda da confiança na economia abala aprovação do governo Dilma

Fábio Alves

26 de maio de 2014 | 15h16

Liquidação em São Paulo: pessimismo se dissemina, esfria vendas e ameaça derrubar ainda mais o crescimento (Foto: Wherter Santana/Estadão)

SÃO PAULO – A confiança de consumidores e empresários em relação à saúde da economia brasileira neste ano pesará não somente na percepção dos analistas para a atividade econômica em 2014, como também no humor dos eleitores sobre o desempenho do governo Dilma Rousseff às vésperas da eleição presidencial em outubro.

Mais um dado de confiança, o do consumidor, mostrou um pessimismo que vem se disseminando com força entre todos os agentes da economia, o que deverá afetar mais ainda as projeções de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para este ano.

Segundo informou a Fundação Getúlio Vargas (FGV) na sexta-feira passada, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) caiu 3,3% em maio em comparação com abril, quando já havia recuado 0,8% sobre março deste ano. Em maio, o ICC bateu 102,8 pontos, o menor nível desde abril de 2009.

“Esse processo de enfraquecimento da confiança não é resultado de um mero efeito psicológico, mas sim reflexo de indicadores, em condições concretas da economia”, disse a esta coluna a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif.

No caso da perda da confiança dos consumidores, além de condições mais adversas de renda, de endividamento das famílias e do próprio mercado de trabalho, Zeina faz uma ressalva importante sobre as implicações da piora do ICC.

“A queda na confiança das famílias está associada à aprovação do governo e a piora do ICC sinaliza novas quedas da aprovação da presidente Dilma”, disse Zeina.

Na pesquisa de intenção de voto divulgada pelo Ibope na quinta-feira passada mostrou que a avaliação ruim ou péssima do governo Dilma Rousseff subiu de 30% em abril para 33% em maio, enquanto os que avaliaram o governo como regular caíram de 34% para 30% e os que disseram que essa avaliação era ótimo ou bom passaram de 34% para 35%.

Zeina também observou que a queda da confiança dos empresários, que tem sido significativa, acaba por contaminar a confiança do consumidor.

“Se o empresário está mais conservador, ele não faz mais investimentos e não contrata mão de obra, o que repercute na confiança do resto”, disse a economista-chefe da XP Investimentos.

Na quinta-feira passada, a FGV informou que a confiança da indústria caiu 4,6% em maio, segundo a prévia da sondagem empresarial. Se confirmado no fim do mês, quando será divulgado o dado fechado, o indicador ficará em 91,2 pontos, o pior nível desde junho de 2009. A última vez em que houve retração de maior magnitude na confiança foi em dezembro de 2008, quando a perda em relação ao mês anterior ficou em 9,2%.

Para Zeina, a queda nos diversos índices de confiança da indústria deverá continuar nos próximos meses, uma vez que esse processo de deterioração do sentimento ainda está em curso.

“No caso da indústria, os empresários já vêm pessimistas desde agosto do ano passado, quando o índice de confiança vem abaixo de 100”, explica Zeina. “De uma forma generalizada todos os setores estão vendo condições presentes mais adversas da economia.”

Segundo a economista, o risco é de que, como reflexo de uma persistente queda na confiança, poderá resultar, ao longo deste ano, em variações trimestrais negativas do PIB.

No início do ano, antes da perspectiva de maior custo com a energia elétrica e de entraves das exportações para a Argentina, a economista-chefe da XP Investimentos acreditava que o teto do crescimento do PIB brasileiro neste ano seria de 1,5%. “Agora, acredito que esse teto está mais baixo”, disse.

A visão de Zeina em relação ao processo de enfraquecimento da confiança de diversos agentes econômicos não é isolada entre analistas e economistas.

Em nota a clientes enviada na sexta-feira, o economista-chefe para América Latina do banco Goldman Sachs, Alberto Ramos, disse que a fraca confiança do consumidor, a moderação nos fluxos de crédito e a desaceleração na criação de vagas de trabalho provavelmente irão prejudicar o consumo privado nos próximos meses.

Quanto ao setor industrial, Ramos observou que a fraca confiança da indústria é um atestado do ambiente desafiador da atividade econômica neste ano dadas as questões visíveis de custo e competitividade, além da dinâmica mais desafiadora na Argentina – um mercado chave para os bens manufaturados de consumo produzidos no Brasil.

Também em nota a clientes, os economistas da MCM Consultores Associados comentaram a queda no ICC de maio divulgada hoje.

“A abertura do indicador mostra queda tanto do índice de situação atual (ISA) em maio (ou -3,9% sobre o mês anterior), quanto do indicador de expectativa (IE) (-2,9% sobre o mês anterior)”, afirmaram os economistas da consultoria. “Como a confiança do consumidor apresenta tendência de queda desde meados de 2012, a expectativa é de continuidade da deterioração das expectativas nos próximos meses.”

Na mais recente pesquisa semanal Focus, do Banco Central, a projeção para o crescimento do PIB brasileiro em 2014 recuou de 1,69% para 1,62%. A expectativa agora é como essas projeções serão afetadas pelos indicadores de confiança daqui em diante.

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