Agência Moody’s indica que pode rebaixar Brasil no curto prazo

Agência Moody’s indica que pode rebaixar Brasil no curto prazo

Relatório desautoriza o esforço que o Ministério da Fazenda vem fazendo em difundir a noção de que o ambiente melhorou em relação à visita dos representantes de outra agência de rating, a Standard & Poor's (S&P), há duas semanas

Fábio Alves

19 de março de 2015 | 13h38

moodys

O sinal dado pela agência de rating Moody’s, em relatório publicado na noite de quarta-feira, 18, deixa a sensação de que o Brasil poderá não escapar de um rebaixamento da sua classificação de risco soberano por essa agência no curto prazo.

E vai além: desautoriza o esforço que o Ministério da Fazenda vem fazendo em difundir a noção de que o ambiente melhorou em relação à visita dos representantes de outra agência de rating, a Standard & Poor’s (S&P), há duas semanas.

Mais ainda: o relatório da Moody’s dá ênfase não apenas ao ajuste fiscal, mas também à recuperação da confiança dos investidores como condições importantes para a avaliação da qualidade do crédito soberano do Brasil, sob o título “Os protestos no Brasil complicam esforços de consolidação fiscal”.

“Descontentamento social e político é negativo para o crédito do Brasil (Baa2, perspectiva negativa), pois complicam os esforços do governo para restaurar confiança do investidor e alcançar consolidação fiscal, dois elementos que a Moody’s considera críticos para melhorar a qualidade de crédito do Brasil”, afirma a nota assinada pelo principal analista para Brasil da agência, Mauro Leos. “Taxas baixíssimas de aprovação para um presidente em exercício provavelmente irão minar seu posicionamento nas negociações com o Congresso.”

Além dos protestos que levaram mais de 1 milhão de brasileiros às ruas no domingo passado, a Moody’s destacou o resultado da pesquisa do Datafolha que mostrou a queda forte da aprovação do governo Dilma Rousseff. Segundo o instituto, a avaliação ótima ou boa para o governo caiu de 23% em fevereiro para 13% na pesquisa divulgada na quarta-feira, enquanto a avaliação ruim ou péssima subiu de 44% para 62%.

Segundo a Moody’s, a deterioração das condições macroeconômicas e o crescente descontentamento social aumentam a incerteza sobre as perspectivas para o Brasil no curto prazo, “adicionando potencialmente pressão sobre à confiança de empresários e consumidores”, os quais já estão em níveis recordes de baixa.

“Acreditamos que a baixa confiança vai seguir pesando sobre o investimento privado, levando a uma deterioração adicional do crescimento do PIB”, afirma a nota da Moody’s. A agência agora espera uma contração de 1% da economia brasileira em 2015, depois de um PIB zero em 2014.

Nesta semana, a equipe econômica está recebendo a visita dos representantes da Fitch Ratings e o discurso das autoridades brasileiras é de confiança de que convencerá a agência a não piorar a avaliação de crédito soberano do País.

A S&P atribui a nota mais baixa ao rating soberano do Brasil: BBB- com perspectiva estável. Um novo corte jogaria a classificação de risco brasileira para a categoria de grau especulativo, ou “junk”. A Fitch Ratings avalia o Brasil um grau acima da S&P, com nota BBB e perspectiva estável. Já a Moody’s tem uma avaliação do crédito brasileiro num patamar semelhante a da Fitch, atribuindo classificação Baa2, mas tem uma perspectiva negativa, ou seja, há o risco de que o seu próximo movimento seja de “downgrade”, ou rebaixamento da nota.

Portanto, a Moody’s e a Fitch têm gordura a queimar e podem se mostrar menos pacientes do que a S&P em relação às condições políticas e econômicas do Brasil.

As agências de rating passaram a ficar mais pacientes com o Brasil após a nomeação de Joaquim Levy para ministro da Fazenda, o que certamente melhorou a percepção da disposição do governo em apertar a política fiscal, atingir um maior superávit primário em comparação a 2014 e estabilizar a relação dívida/PIB.

Por outro lado, o “willingness” (ou a disposição) de o Brasil fazer um ajuste fiscal pode ter aumentado com a entrada de Levy no governo, mas a capacidade de atingir as metas diminuiu, com a perspectiva de contração maior da economia.

Na última pesquisa Focus, divulgada pelo Banco Central na segunda-feira passada, a projeção do PIB para 2015 passou de uma contração de 0,66% para queda de 0,78%. E várias instituições financeiras vêm revisando para baixo suas estimativas para a economia brasileira não somente em 2015, como também para 2016.

Em relatório a clientes hoje, por exemplo, o economista-chefe da Bradesco Corretora, Dalton Gardiman, revisou a projeção para o PIB deste ano de uma queda de 0,7% para uma contração de 2%. Para 2016, a Bradesco Corretora, reduziu a estimativa de um crescimento de 1,4% para expansão de 0,8%.

Assim, a batalha do governo brasileiro para evitar rebaixamentos da sua classificação de risco soberana ainda está longe de suscitar confiança. Muitos analistas do mercado consideram difícil a obtenção da meta de superávit primário de 1,2% do PIB neste ano e de 2% do PIB em 2016.

Mais do que atingir o objetivo, a direção de um esforço fiscal irá pesar na confiança de investidores e das agências de rating. Mas o cenário atual, de forte desaceleração da economia e de maior fragilidade política do governo para aprovar medidas de seu interesse no Congresso, joga contra a avaliação de crédito soberano do Brasil.

* Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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