Recessão nos EUA, ameaça iminente?

Mesmo para quem não tem a recessão como risco iminente, o enfraquecimento dos indicadores de atividade tem sido preocupante

Fábio Alves

11 Fevereiro 2016 | 13h10

Após o tom cauteloso da presidente do Federal Reserve (Fed), Janet Yellen, sobre a economia americana, durante o seu depoimento ontem na Câmara dos Deputados, analistas e investidores vão voltar suas atenções para o risco de recessão nos Estados Unidos.

Quanto maior for o risco de recessão precificado pelo mercado, maiores serão as chances de que o Fed não somente interromperá o ciclo de aperto monetário iniciado em dezembro, como também abrirá espaço para a especulação de que o próximo passo será o corte dos juros básicos americanos, podendo levá-los a taxas negativas.

Ao contrário de analistas, os investidores estão mais agressivos na precificação do risco de recessão – refletido na curva de juros -, apostando já numa chance próxima de 50% nos próximos seis meses.

Levando em conta seu modelo de condições financeiras (desempenho das bolsas de valores, spreads do mercado de crédito, volatilidade e taxa de câmbio), a TD Securities projeta um risco de 45% de recessão em seis meses. Por outro lado, pelo seu modelo econométrico, esse risco cai para 33%. “Embora ainda sejam níveis bem distantes de apontar uma ameaça iminente, esses números estão bem acima do risco observado no início de 2015, que era de 10%”, escreveram os analistas da TD Securities em nota a clientes.

Segundo eles, o patamar atual do risco de recessão nos Estados Unidos só foi superado em três vezes no ciclo atual: em setembro de 2011 (após o rebaixamento do rating do EUA e da crise na zona do euro); em julho de 2012 (no auge da crise do euro); e em setembro de 2015 (após a desvalorização do yuan pela China).

Os analistas da TD Securities também destacam o movimento de antecipação do início de um ciclo de afrouxamento monetário pelos mercados futuros de juros antes das últimas três recessões. Durante a recessão que durou de julho de 1990 a março de 1991, a curva de juros começou a precificar com 13 meses de antecedência o início do corte das taxa básica pelo Fed. Na recessão entre março e novembro de 2001, os contratos futuros anteciparam o ciclo de afrouxamento em quatro meses. E na recessão entre dezembro de 2007 a junho de 2009, essa antecipação foi de três meses.

Mesmo para quem não tem a recessão como risco iminente, o enfraquecimento dos indicadores de atividade nos Estados Unidos tem sido preocupante.

Os analistas do banco Morgan Stanley, por exemplo, admitem que mesmo a projeção deles, de crescimento de 1,8% do Produto Interno Bruto (PIB) americano – que já está abaixo das estimativas do consenso de mercado -, parece cada vez mais desafiadora em se concretizar. Quanto mais a previsão de expansão de 2,4% do Fed.

Assim, os investidores e analistas esperam uma revisão forte das projeções macroeconômicas do Fed na reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), marcada para os dias 15 e 16 de março, incluindo um rebaixamento na expectativa de crescimento da economia americana para este ano e também para o número de elevações da taxa básica de juros, atualmente previsto para quatro em 2016.

O que talvez ainda tenha segurado as expectativas em relação ao risco de recessão nos Estados Unidos é o número de criação de vagas de emprego, ou “payroll”, que ainda tem se mantido num nível robusto. Em janeiro, por exemplo, houve a criação de 151 mil postos de trabalho, o que, mesmo abaixo das estimativas do mercado, não foi um número preocupante.

“O payroll não é um indicador antecedente de atividade, mas ele tem sido robusto. E, em toda recessão, tem-se observado um afundamento do emprego”, comenta o economista-chefe para Estados Unidos do Deutsche Bank, Joseph LaVorgna. “Isso pode acontecer, mas não parece (provável) no horizonte, a menos que os pedidos de auxílio de desemprego fossem sustentavelmente exceder o patamar de 300.000.”

Ainda é cedo para se bater o martelo em relação ao risco de recessão, embora a sustentação da atividade econômica americana tem se limitado mais ao consumo.

De qualquer forma, o temor e a precificação da recessão – com impacto sobre os preços das ações e de outros ativos – podem tornar as condições financeiras bem mais apertadas, fazendo o trabalho que caberia ao Fed, isto é, de seguir elevando os juros básicos.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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