Reforma ministerial salva Dilma, mas não índices de confiança

Um arranjo político em que a presidente siga frágil politicamente representa um horizonte de baixa probabilidade de o governo conseguir fazer o ajuste fiscal

Fábio Alves

01 Outubro 2015 | 14h00

O arranjo político que se consolida da reforma ministerial, com maior espaço do PMDB no governo, deve ser suficiente para garantir, ao menos temporariamente, uma sobrevida à presidente Dilma Rousseff, mas conseguirá tirar a economia brasileira da recessão e trazer de volta o investimento e o consumo?

Em setembro, os principais índices de confiança da economia brasileira voltaram a bater recordes históricos de baixa: o do consumidor caiu 5,3% em relação a agosto, para 76,3 pontos; o da indústria cedeu 2,9%; o da construção civil recuou 6,5%; o de serviços despencou 8,4%; e o do comércio caiu 4,1%.

Os índices de confiança estão em queda há vários meses, num declínio observado desde meados de 2014, refletindo inicialmente o pessimismo de empresários, investidores e consumidores em relação aos rumos da política econômica adotada no primeiro mandato da presidente Dilma, que ficou conhecida como Nova Matriz Econômica.

Mas ao longo deste ano, a crise política e a incerteza sobre se Dilma conseguirá terminar ou não seu mandato sobrepuseram-se ao ambiente econômico recessivo e às decisões de política econômica para influenciar os índices de confiança.

Portanto, a sobrevida da presidente Dilma, com o consequente afastamento do risco de impeachment, ao menos temporariamente, não é condição suficiente para, por exemplo, levar empresários a investir em novos projetos, em ampliação da produção ou na contratação de empregados.

Isso porque num arranjo político em que a presidente siga frágil politicamente representa um horizonte de baixa probabilidade de o governo conseguir fazer o ajuste fiscal necessário para reverter o aumento da dívida pública, a aceleração da inflação, a contenção na concessão de crédito por bancos privados e o rebaixamento adicional da classificação de risco soberano brasileiro.

Assim, a perspectiva é de deterioração da atividade econômica, o que realimentará a fragilidade política da presidente Dilma, via baixo índice de aprovação do governo dela por parte dos eleitores.

A taxa de desocupação no Brasil ficou em 8,6% no trimestre até julho de 2015, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, maior nível desde o início da série histórica apurada pelo IBGE.

Vários analistas estão prevendo o aumento no desemprego. A consultoria GO Associados, por exemplo, projeta desemprego de 10% no trimestre até dezembro deste ano. O banco Credit Suisse, ao comentar o resultado da Pnad Contínua, projeta que o desemprego ficará entre 9,5% e 10% até o fim deste ano.

Com o crescente fechamento de vagas de empregos com carteira assinada e aumento do número de desocupados, é provável que a aprovação dos eleitores ao governo Dilma registre novos patamares de baixa recorde.

Não se vê, portanto, uma recuperação dos índices de confiança enquanto o atual arranjo político mantiver a presidente Dilma acuada, isolada e refém de seus próprios erros na condução da política econômica.

Ou seja, a reforma ministerial poderá resolver um problema para Dilma, para o ex-presidente Lula e para o PT: a manutenção da Presidência da República até 2018, mas não resolve um problema maior para a economia brasileira.

A falta de horizonte em termos de estabilidade política (quem será o presidente do País daqui a seis meses?), de previsibilidade da política fiscal e monetária, e de perspectiva de um ajuste macroeconômico crível vai seguir minando a confiança de investidores, empresários e consumidores.

E sem a recuperação da confiança a atividade econômica dificilmente sairá do círculo vicioso em que se encontra.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast