Rejeição a Dilma dispara, mas não chega ao teto

Rejeição a Dilma dispara, mas não chega ao teto

Fábio Alves

22 de junho de 2015 | 13h16

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Foto: Dida Sampaio/Estadão

O forte aumento na taxa de rejeição do governo Dilma Rousseff, conforme a pesquisa Datafolha divulgada no sábado passado (20), não chegou ao seu limite.

A piora no desemprego, mais do que novas denúncias no âmbito da Operação Lava Jato, deve aumentar ainda mais o número de brasileiros que avaliam o desempenho do governo como “ruim” ou “péssimo”. Por outro lado, a queda dos que têm avaliação de Dilma como “boa” ou “ótima” não deve ser grande daqui em diante, até porque já está em nível muito baixo.

De acordo com o Datafolha, 65% das pessoas ouvidas consideraram o desempenho do governo como “ruim” ou “péssimo”. Na última pesquisa, realizada no início de abril, essa rejeição foi de 60%. Já os que tiveram avaliação “boa” ou “ótima” passaram de 13% em abril para 10% no levantamento de junho.

O fiel da balança serão os que avaliaram o desempenho do governo como “regular”, que agora são 24%.

Essa parcela do eleitorado, aliás, é mais crítica do que os 10% que aprovam o governo Dilma.

Mais que isso: os que avaliam como regular o desempenho da presidente são mais sensíveis às dificuldades da economia brasileira.

O aumento do desemprego, a perda de renda e a alta da inflação causam um impacto grande no humor da classe média brasileira, em particular daqueles que emergiram para a Classe C e deixaram para trás uma situação de pobreza.

De acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) divulgado na sexta-feira passada (19), houve um fechamento líquido de 115.599 vagas formais de trabalho, o pior resultado em 23 anos.

Também na sexta-feira, o IBGE divulgou que a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – 15 (IPCA-15) registrou alta de 0,99% em junho, bem acima da estimativa dos analistas, cujo consenso era de alta de 0,85%. O índice acumula alta de 8,80% em 12 meses.

Assim, é muito mais provável haver uma migração dos que avaliam o governo como “regular” para a categoria “ruim” ou “péssimo” do que para “bom” ou “ótimo”.

Isso porque a tendência é de piora no mercado de trabalho e de maior aceleração da inflação nos próximos meses.

Antes de a economia melhorar – com recuperação do índice de confiança de empresários e consumidores, além de retomada dos investimentos -, a atividade econômica deve se enfraquecer ainda mais como resultado do ajuste fiscal em curso pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e do ciclo de alta de juros ainda sendo implementado pelo Banco Central.

Ou seja: a situação econômica ainda vai piorar antes de melhorar.

E isso terá um efeito imediato sobre a popularidade da presidente.

Apesar da repercussão na imprensa das prisões de presidentes da Odebrecht e da Andrade Gutierrez na 14ª fase da operação Lava Jato, o efeito psicológico sobre o eleitorado é mais limitado do que nas prisões anteriores feitas pela Polícia Federal, a não ser que haja uma revelação mais grave envolvendo diretamente o governo e que seja comprovada.

“O escândalo da Lava Jato atinge negativamente a imagem da presidente, mas atinge um segmento da população que já é bem informado sobre as investigações e já é mais crítico ao governo”, afirmou a esta coluna o analista sênior da consultoria política Arko Advice, Cristiano Noronha.

E qual será o impacto político se houver novo aumento da taxa de rejeição da presidente nas próximas pesquisas de opinião?

“Os índices de rejeição ao governo deixam talvez a oposição mais livre para pedir o impeachment da presidente, mas a oposição sabe que a baixa popularidade não é suficiente: é preciso uma prova concreta de uma eventual irregularidade cometida pelo governo”, explicou Noronha.

Por outro lado, se a presidente Dilma estivesse com a popularidade em alta e elevada aprovação do seu desempenho, mesmo o surgimento de evidências mais fortes contra o seu governo teria dificuldade de levar adiante pedidos de impeachment.

Mas a fraqueza política da presidente – refletida pela baixa aprovação de seu governo – faz com que a tolerância à qualquer evidência seja menor por parte dos parlamentares brasileiros.

“Essa fraqueza política deixa a oposição sem nenhum constrangimento em pedir o impeachment”, ponderou Noronha.

Se depender do ambiente econômico, a desaprovação do governo deve subir nos próximos meses.

Na pesquisa Focus, divulgada nesta segunda-feira pelo Banco Central, os analistas projetam uma alta de 8,97% da inflação e uma queda 1,45% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro neste ano.

E o fundo do poço parece não ter chegado ainda.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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