Remédio para o Brasil crescer é amargo e vai doer, diz Goldman Sachs

Fábio Alves

16 de maio de 2014 | 13h28

SÃO PAULO – A economia brasileira cresceu a um ritmo muito mais lento no primeiro trimestre de 2014 do que se esperava na virada do ano, e a perspectiva para os próximos trimestres é de que atividade econômica siga em velocidade reduzida, na opinião do economista-chefe para América Latina do banco Goldman Sachs, Alberto Ramos.

Depois de o Produto Interno Bruto (PIB) ter crescido apenas 2,7% em 2011, 1% em 2012 e 2,3% em 2013, os analistas do mercado financeiro esperam um resultado também decepcionante em 2014. Na mais recente pesquisa semanal Focus, do Banco Central, os economistas consultados projetam um avanço de 1,69% do PIB em 2014 e de 1,9% em 2015. É ainda pouco.

Para Alberto Ramos, foram dois os grandes vilões para a expansão mais baixa do que o esperado no primeiro trimestre deste ano: inflação mais elevada e confiança menor de consumidores e empresários. O remédio para o Brasil voltar a crescer a taxas maiores é amargo e vai provavelmente doer, segundo Ramos. É, contudo, um remédio necessário e inadiável.

“O Brasil é uma economia com problemas estruturais muito sérios e com desequilíbrios conjunturais”, diz Ramos, em entrevista por telefone de seu escritório em Nova York.

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“É como se o Brasil tivesse nos últimos anos comendo muito doce, ganhando peso, mas agora vai ter que correr bastante, suar e ficar cansado para perder toda a gordura que acumulou” (Foto:Divulgação)

 

Recessão técnica. Infelizmente, segundo o economista do Goldman Sachs, o ajuste que a economia brasileira necessita fazer será um que resultará provavelmente numa recessão técnica, o que afetará, inclusive, a criação de empregos.

“Só a contração do PIB é que vai conseguir matar a dinâmica atual da inflação”, argumenta Ramos.

Prévia do PIB. Hoje, foi divulgado o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) para o mês de março, que registrou uma queda de 0,11% em relação a fevereiro desde ano. Assim, no acumulado do primeiro trimestre, o IBC-Br apresentou um avanço de 0,3% em relação ao último trimestre de 2013.

Muitos analistas consideram que o IBC-Br antecipa o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Todavia, os resultados mais recentes do IBC-Br não têm ficado em linha com o número final do PIB.

O mercado financeiro chegou a ficar otimista em relação ao crescimento da economia deste ano quando, no dia 27 de fevereiro, o IBGE divulgou o PIB do quarto trimestre de 2013, que surpreendeu positivamente as expectativas dos analistas.

No quarto trimestre de 2013, o PIB cresceu 0,7% em relação ao trimestre imediatamente anterior, resultado que ficou acima das estimativas dos analistas, cujo consenso era de uma alta de 0,23%. Na comparação com o quarto trimestre de 2012, o PIB apresentou alta de 1,9% no quarto trimestre de 2013, vindo acima das estimativas, com mediana de expansão de 1,50%.

Expectativas. No entanto, os indicadores de atividade ao longo do primeiro trimestre causaram decepção, levando a revisões para baixo no crescimento do trimestre e do ano pelo mercado financeiro.

Ontem, por exemplo, as vendas do comércio varejista restrito caíram 0,5% em março ante fevereiro, na série com ajuste sazonal, o segundo pior resultado da série histórica do IBGE iniciada em 2002. O desempenho em março deste ano ficou abaixo da mediana das estimativas, que era de estabilidade das vendas sobre o mês anterior.

Na comparação com março de 2013, na série sem ajuste sazonal, as vendas do varejo registraram queda de 1,1% em março deste ano, também pior do que a mediana, que era de uma contração de 0,5%.

No varejo ampliado, que inclui as atividades de material de construção e de veículos, as vendas caíram 1,2% em março em relação a fevereiro deste ano, na série com ajuste sazonal, enquanto a mediana era de uma contração de 0,7%.

Na semana passada, o IBGE também divulgou o resultado da produção industrial em março deste ano: retração de 0,5% em comparação com o mês anterior.

“A aceleração da inflação, causada até pelo choque nos preços dos alimentos, e a queda pronunciada de todos os indicadores de confiança (de consumidores, da indústria, da construção civil. etc.) foram as principais causas para o crescimento mais fraco do que o inicialmente previsto para o primeiro trimestre”, explica Ramos.

Ele projeta um crescimento de 1,8% do PIB em 2014 e também em 2015. “A queda na confiança está correlacionada com a deterioração da inflação”, diz Ramos. “É preciso adotar políticas corretivas, combatendo frontalmente a inflação e depreciando mais o câmbio. Caso contrário, o crescimento do PIB seguirá medíocre”, afirma. Para Ramos, a cotação do dólar deveria estar bem mais alta do que está hoje, ao redor de R$ 2,21. Para ele, a cotação para equilibrar os problemas no Brasil seria de R$ 2,70 ou acima disso.

Na mais recente pesquisa Focus, os analistas projetam uma inflação de 6,39% em 2014 e de 6% em 2015.

“No cenário de ajuste, o brasileiro precisa ter maior prudência no manejo das finanças da família”, recomenda o economista do Goldman Sachs.

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