Trump vence, FED pausa; Trump perde, FED sobe

Se a democrata Hillary Clinton se tornar a primeira presidente mulher daquele país, os mercados vão provavelmente voltar à postura 'business as usual'

Fábio Alves

07 Novembro 2016 | 12h01

O desfecho da eleição presidencial dos Estados Unidos, após os eleitores americanos irem às urnas nesta terça-feira, irá determinar se os investidores ao redor do globo vão focar nos indicadores de atividade econômica ou se a política vai dominar as atenções por muito mais tempo, caso o candidato republicano Donald Trump seja o vencedor do pleito.

Se a democrata Hillary Clinton se tornar a primeira presidente mulher daquele país, os mercados vão provavelmente voltar à postura “business as usual” e dar mais peso aos indicadores macroeconômicos que deverão influenciar o próximo catalisador mais importante para os preços dos ativos, que é a reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) do Federal Reserve (Fed), marcada para dezembro, quando se espera uma elevação dos juros americanos. Isto é, se Hillary vencer.

Diante de uma esperada guinada radical na condução das políticas econômicas e externas caso Trump seja eleito presidente da maior economia do mundo, os investidores vão monitorar cada palavra e decisão que saia da boca do republicano – considerado o mais imprevisível dos candidatos na corrida presidencial dos Estados Unidos.

Obviamente que o presidente sozinho não consegue levar o país para um rumo tão desgovernado: o Congresso tem um papel fundamental. E, ao que tudo indica, seja quem for eleito presidente amanhã, o Congresso resultante das eleições deverá estar dividido, com o próximo presidente governando sem uma maioria do seu partido ou do rival.

Ou seja, escolhas do próximo presidente sobre uma nova política tributária ou de gastos do governo, por exemplo, teriam muitas dificuldades de passar pelo crivo dos parlamentares americanos.

“O resultado da eleição não produzirá sinais claros sobre o caminho da política fiscal dos Estados Unidos à medida que nenhum partido provavelmente dominará o Congresso e há divisões intra-partidárias significativas sobre temas fiscais”, escreveram os economistas do banco J.P. Morgan em nota a clientes.

Todavia, lembram os economistas do J.P. Morgan, o novo presidente terá atribuições vitais para os mercados globais, entre as quais a indicação do sucessor da presidente do Fed, Janet Yellen. Trump, por exemplo, já deu declarações no passado prometendo tirar Yellen do comando do Fed se for eleito presidente.

Não à toa as reações fortes nos preços dos ativos na última semana, quando as pesquisas de opinião mostraram uma indefinição do desfecho da eleição. O Dollar Index, por exemplo, caiu 1,2% na semana passada.

“Uma vitória do Trump poderia transtornar os investidores numa magnitude de perturbar os mercados financeiros profundamente e através disso afetar a decisão do Fed (sobre juros) em dezembro”, afirmou o estrategista-chefe do Brown Brothers Harriman, Marc Chandler, em nota a clientes.

Para os estrategistas de câmbio do banco francês Société Générale, uma vitória de Trump seria mais negativa do que uma vitória de Hillary seria positiva, levando a uma pressão de baixa sustentável nas moedas emergentes mais prolongada. “Uma vitória de Hillary Clinton poderia se traduzir num rali transitório e modesto nas moedas emergentes, com exceção do peso mexicano, que se fortaleceria significativamente”, disseram os estrategistas do SocGen.

Por outro lado, para os estrategistas de câmbio do banco Goldman Sachs, depois da correção observada pelo dólar frente à cesta de moedas de países desenvolvidos (via Dollar Index), cresceu a probabilidade de uma alta mais substancial do dólar num cenário de vitória de Hillary Clinton, passando a embutir, inclusive, uma maior probabilidade de alta dos juros americanos pelo Fed em dezembro, refletindo com maior clareza o resultado mais recente do “payroll” (criação de vagas de emprego).

“Não ficaríamos surpresos em ver uma alta de 3% ponderada pelo comércio (trade-weighted) do dólar, levando a moeda americana para próximo do pico da faixa (‘range’) observada desde março de 2015”, escreveram os estrategistas do Goldman Sachs. Frente à cesta de moedas que compõem o Dollar Index, esses estrategistas acreditam que o dólar recuperaria mais terreno em relação ao euro e ao iene.

Apesar de as pesquisas ainda indicarem uma corrida apertada, os analistas da corretora TD Securities ainda trabalham com um cenário em que Hillary é eleita presidente dos EUA, com os republicanos mantendo o controle da Câmara dos Deputados e os democratas voltando a controlar o Senado por uma pequena margem.

Se esse cenário se concretizar, os analistas da TD Securities acreditam que os investidores passarão a precificar uma probabilidade de 85% de alta dos juros pelo Fed em dezembro. Uma vitória do Trump faria com que essa precificação caísse para apenas 20%.

Ou seja, é tudo ou nada na terça-feira.