Um salto na inadimplência, nova ameaça à espreita

Um salto na inadimplência, nova ameaça à espreita

Preocupação de analistas é de que calotes de consumidores e empresas atinja um nível que possa afetar o sistema bancário, causando ainda mais retração na economia

Fábio Alves

01 de março de 2016 | 16h04

Com o aumento do desemprego, queda na renda real e aprofundamento da recessão, um potencial salto na inadimplência de consumidores e de empresas pode, em breve, passar a ser o foco de maior preocupação em relação à economia brasileira.

Na opinião de um economista-chefe de um grande fundo de investimento do Rio de Janeiro, os bancos privados foram conservadores na estimativa para o aumento dos calotes neste ano. Para ele, a inadimplência deverá dar um salto de, pelo menos, dois pontos porcentuais ao longo deste ano.

“É natural: não pode o PIB cair 8% em dois anos e não subir forte a inadimplência”, disse o economista carioca a esta coluna. “O aumento da inadimplência é o último elo de uma cadeia de acontecimentos na economia, como a alta do desemprego e queda da atividade.”

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Inadimplência aumentou em janeiro, segundo dados do BC (Foto: André Dusek/Estadão)

Segundo o Banco Central, a taxa de inadimplência no crédito livre ficou em 5,4% em janeiro ante 5,3% em dezembro. Para pessoa física, a taxa de inadimplência passou de 6,1% ao fim de 2015 para 6,2% em janeiro. Para as empresas, subiu de 4,5% para 4,7%.

Ou seja, não se registrou ainda um aumento mais acelerado do calote até o momento, mas a preocupação é de o atraso no pagamento de dívidas e contas por parte de consumidores e empresas atinja um nível desconfortável o suficiente que possa afetar o sistema bancário, resultando num aperto mais forte do crédito e, por tabela, num impacto maior para a atividade econômica.

Em conversa com esta coluna, o economista-chefe de um banco europeu disse acreditar que a inadimplência de pessoas física e jurídica tende a continuar subindo devido ao aumento do desemprego e de falências.

“Do lado da pessoa física, os consumidores pararam de consumir e estão se desalavancando, o que é bom”, comentou a fonte acima. “Do lado da pessoa jurídica, é mais complicado, pois à medida que a economia não sai do buraco, o problema tende a se agravar.”

O economista do banco europeu ressalta que uma preocupação importante é como isso afeta o sistema financeiro. Os bancos brasileiros estão bem capitalizados e de certa forma já estavam preparados para a crise, segundo ele. “Porém, à medida que os problemas se acumulam e a economia não sai do lugar, os bancos vão enfrentar cada vez mais dificuldades para voltar a oferecer crédito, o que deve prolongar a recessão”, explicou.

Por enquanto, o sentimento é que os bancos estão subestimando o potencial de aumento da inadimplência.

O Bradesco, por exemplo, trabalha com cenário de crescimento gradual da inadimplência ao longo de 2016, mas considera uma possível estabilidade do indicador no final deste ano. O banco prevê alta de 0,1 ponto porcentual a 0,2 p.p. a cada trimestre.

Na divulgação de seus resultados do quarto trimestre de 2015, o Bradesco divulgou guidance para despesas com provisões para devedores duvidosos (PDDs), líquidas de recuperações, de R$ 16,5 bilhões a R$ 18,5 bilhões. Os executivos do banco projetam que esse número fique no centro do guidance, de R$ 17,5 bilhões, que representaria um aumento próximo de 15% em relação a 2015.

“A profundidade da recessão, nenhum sinal de recuperação econômica, desemprego crescente, alta taxa de juros e inflação apontam para um ciclo de NPL (non-performing loans, ou empréstimos não performados ou em atrasos) mais longo do que qualquer outro desde que os dados sobre eles ficaram disponíveis”, disseram em relatório a clientes os economistas Cassiana Fernandez, Vinicius Moreira e Natália Corfield, do banco J.P. Morgan.

Para os economistas do J.P. Morgan, ao contrário de ciclos recentes de NPL, no atual as grandes empresas estão experimentando dificuldades em honrar os serviços de suas dívidas, o que pode se traduzir em maiores perdas para os bancos, dado que é grande a exposição média deles a tomadores específicos de crédito.

Na visão dos analistas do J.P. Morgan, o Brasil não enfrentará uma crise bancária sistêmica, mas um “credit crunch” (escassez forte de crédito) é provável e poderá gerar mais riscos de queda da economia.

Nos próximos meses, o mercado poderá começar a reagir mais aos números de inadimplência e atrasos nos pagamentos de dívidas de consumidores e empresas. Para as corporações, um novo salto na cotação do dólar poderá tornar o fardo de obrigações em moeda estrangeira ainda maior e agravar a situação para os bancos e a economia como um todo.

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