Votação da desoneração da folha no Senado será veredicto dos protestos

Fábio Alves

17 de agosto de 2015 | 12h38

Independentemente do debate sobre se as manifestações contra o governo no domingo levaram um número suficiente de pessoas às ruas para acuar mais ainda a presidente Dilma Rousseff, o mercado financeiro espera o veredicto final que lhe interessa desse protesto:

A votação pelo Senado prevista para esta terça-feira, 18, do projeto de desoneração da folha de pagamentos.

Para interlocutores desta coluna, a pergunta que o mercado se faz hoje é se os senadores consideraram as manifestações do domingo fortes o suficiente para abalar o incipiente apoio – o acórdão entre o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e Dilma – da Casa ao governo.

A resposta será dada amanhã. É o impacto prático das manifestações que interessa ao mercado.

Os investidores davam como praticamente morto o projeto de desoneração, depois que o mesmo foi diluído pela Câmara dos Deputados.

Com a aproximação de Dilma e Renan, o projeto ganhou sobrevida inesperada. Uma votação favorável ao governo terá um impacto muito positivo nos preços dos ativos brasileiros e poderá ser um divisor de águas em termos de confiança de empresários e investidores.

Esse projeto é essencial para que se avance também a votação da chamada Agenda Brasil, um programa de 28 itens que foi elaborado por Renan com endosso do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, mas que foi tachado por muitos como um plano retórico, como “wishful thinking”, dada a fraqueza política da presidente Dilma. Eduardo Cunha, presidente da Câmara, por exemplo, chamou a Agenda Brasil como espuma.

Também pode ser votada ainda nesta semana pelo Senado outra medida considerada de interesse do governo: a repatriação de dinheiro de brasileiros no exterior. Isso porque essa medida, que faz parte da Agenda Brasil, é condição para o Senado aprovar a reforma do ICMS, considerada fundamental para o ministro Levy.

Um desfecho favorável ao governo numa eventual votação do projeto de desoneração da folha de pagamentos e de repatriação de recursos de brasileiros no exterior poderá servir para neutralizar, em parte, a chamada “pauta bomba” que Eduardo Cunha vem patrocinando na Câmara, segundo interlocutores desta coluna.

Nesta semana, por exemplo, os deputados podem votar o projeto que equipara a remuneração dos recursos do FGTS à das cadernetas de poupança, o que o governo não quer.

Mas essa “pauta bomba” já está no preço do mercado financeiro. O que ainda não estava precificado pelos ativos é uma votação favorável ao governo no projeto de desoneração da folha de pagamentos.

O que pode alterar bastante o quadro político desta semana é um eventual anúncio pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de denúncia contra políticos com foro privilegiado no âmbito da Operação Lava Jato.

Interlocutores desta coluna estão embutindo nos seus cenários a inclusão do nome de Eduardo Cunha, mas não o de Renan Calheiros. Essa seria a moeda de troca pelo apoio do presidente do Senado ao governo, segundo analistas ouvidos por esta coluna.

Qualquer surpresa nas denúncias de Janot a políticos poderá trazer nova turbulência, fazendo recuar as vitórias temporárias que a presidente Dilma conseguiu na semana passada.

De qualquer forma, as manifestações de rua não foram consideradas “retumbantes” pelo mercado financeiro, afetando o humor dos investidores hoje. Mas a sua repercussão, de fato, só será avaliada pelo mercado com a votação de medidas importantes no Congresso.

Esse é o termômetro que interessa e a partir do qual novos cenários de curto e médio prazo serão refeitos. Ou não.

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