Votação do impeachment sinaliza apoio ao Plano Temer

Temer provavelmente aprendeu com os erros de Dilma desde o primeiro mandato, como a aversão da petista em se relacionar com os parlamentares

Fábio Alves

18 de abril de 2016 | 12h22

O resultado final da votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff pela Câmara dos Deputados pode ser um importante termômetro para aferir o grau de apoio que um eventual governo Michel Temer poderá ter no Congresso para aprovar medidas importantes e impopulares de ajuste macroeconômico.

Aliás, logo após a votação na Câmara, uma romaria de parlamentares chegou ao Palácio do Jaburu, residência oficial do vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB), para cumprimentá-lo, informou ontem à noite o Broadcast.

Mais do que observar o “beija-mão” tão comum nesses momentos, é importante destacar a diferença entre um eventual presidente Temer e a possível ex-presidente Dilma na relação com o Congresso.

Temer provavelmente aprendeu com os erros de Dilma desde o seu primeiro mandato. A aversão da petista em se relacionar com os parlamentares e em negociar previamente medidas econômicas com o Congresso, custou-lhe caro não somente em termos de condução da economia, como também quanto à manutenção do seu mandato.

A evolução dos votos a favor do impeachment nas últimas duas semanas é uma boa régua de como Temer e seus aliados no PMDB foram hábeis em costurar uma aliança parlamentar.

No dia 5 de abril, o placar divulgado pelo Grupo Estado mostrava 234 votos a favor do impeachment. Ontem, o placar final foi de 267 votos a favor (72% do total de 513 deputados) e 137 contra (27%).

Outro dado impressionante foi o grau de fidelidade que Temer conseguiu do seu próprio partido. Dos 67 deputados peemedebistas, 59 votaram a favor do impeachment e apenas sete contra, com um ausente.

Esse dado é significativo, uma vez que o PMDB é conhecido por sua divisão, com alas seguindo caciques como o próprio Temer, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e o presidente do Senado, Renan Calheiros.

Se Renan vinha se mostrando, ao menos em público, reticente em apoiar o movimento pró-impeachment liderado por Temer e Cunha, a votação dos peemedebistas mostrou que, se o senador trabalhou contra, não obteve sucesso.

Também significativa foi a fidelidade a Temer de parlamentares ligados teoricamente à base aliada do governo Dilma: segundo a consultoria Arko Advice, dos 122 deputados do PSD, PP e PR, 76% deles votaram a favor do impeachment.

Já na oposição “oficial” (PSDB, DEM, PPS, PSC, SD e PSB), a adesão ao impeachment foi de 98%.

Ou seja, se a votação do impeachment pela Câmara foi o primeiro teste no Congresso de um eventual governo Temer, a expectativa que fica é que o peemedebista tem um potencial animador para conseguir aprovar medidas de ajuste fiscal, no mínimo as menos polêmicas e difíceis politicamente de serem aprovados num ambiente de recessão profunda.

Obviamente, o que preocupa é o preço que Temer terá que pagar por esse apoio parlamentar tão amplo ideologicamente.

Poderá esse apoio se traduzir em diluição do ajuste macroeconômico?

Até que ponto uma nova base aliada endossará os pilares do documento “Ponte para o Futuro”, que é o programa econômico do PMDB?

Por enquanto, a resposta a essas duas questões fica em aberto.

A composição do ministério de Temer poderá ser uma boa indicação disso.

Manterá Temer a estrutura inchada de ministérios observada no governo Dilma para abrigar tantos aliados no Congresso?

O núcleo da nova equipe econômica representará uma base mais coesa de apoio, com o PSDB como principal contribuidor?

As primeiras declarações e decisões de Temer a respeito poderão animar ou frustrar as expectativas.

Como a lua de mel dos mercados com o peemedebista será breve, ele não terá muito espaço para errar, sob a ameaça de ver a maré voltar-se rapidamente contra si enquanto o Senado julga o afastamento definitivo de Dilma.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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