Yellen e o rali do impeachment

Dólar pode acentuar a queda frente ao real com o sinal claro de que o Federal Reserve não elevará os juros em abril

Fábio Alves

30 de março de 2016 | 11h43

O claro recado da presidente do Federal Reserve (Fed), Janet Yellen, de que o banco central americano não elevará os juros em abril poderá ampliar e muito o movimento de queda do dólar frente ao real com o desenrolar, ao longo do mês que vem, do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Para muitos interlocutores desta coluna, o câmbio ainda não precificou todo o rali do impeachment, ou seja, há espaço para queda adicional do dólar. Não se pode até descartar um movimento temporário de overshooting, dependendo do gatilho.

Por enquanto, a percepção é de que a cotação do dólar frente ao real já embute a aprovação do impeachment pelo plenário da Câmara dos Deputados, o que ocorreria, se não houver atrasos no calendário mais otimista para acontecer essa votação, na segunda quinzena de abril.

Mas o que o mercado ainda não começou a precificar, ao menos no câmbio, é a aceitação ou não do processo de impedimento pelo Senado, o que forçaria a presidente Dilma se afastar do cargo por 180 dias. Tampouco, os preços dos ativos refletem ainda uma avaliação do mercado sobre a velocidade da tramitação do impeachment pelo Senado.

Assim, até onde o dólar recuaria frente ao real se houver quaisquer sinais mais concretos de que o Senado deve aprovar o impeachment da presidente Dilma?

O primeiro aspecto dessa questão tem a ver com as consequências da mensagem dada ontem pela Yellen, do Fed, especialmente porque nas últimas semanas vários diretores (com voto ou não no Fomc, ou Comitê Federal de Mercado Aberto) do BC americano fizeram declarações bastante “hawkish” (inclinado ao aperto), dando a entender que uma alta de juros poderia ocorrer na reunião de política monetária do Fed em abril.

Com o recado de Yellen de que os próximos passos do aperto monetário serão feitos pelo Fed com muita cautela e sem pressa, o apetite a risco voltou com força hoje, alimentando uma apreciação de várias outras moedas emergentes.

Ou seja, não basta se ater apenas à valorização do real frente ao dólar: os ganhos de outras divisas de países emergentes ante a moeda americana forçam, teoricamente, para baixo o piso para a cotação dólar/real.

Com a valorização mais generalizada de outras moedas emergentes, o piso para o dólar versus o real fica mais baixo, isto é, quem considerava que o patamar de R$ 3,60 já havia praticamente esgotado o rali, precisará rever essa conta, uma vez que o dólar se enfraqueceu globalmente.

Aí entra o segundo elemento dessa questão: o BC brasileiro.

Qual a magnitude de valorização do real que o BC pretende deixar acontecer?

Qual o apetite que o BC terá para reduzir o estoque dos contratos de swaps cambiais, hoje ao redor de US$ 100 bilhões?

Se aproveitar essa janela de oportunidade para reduzir significativamente esse estoque, o BC estará limitando o potencial de queda do dólar frente ao real e, por tabela, diminuindo também a força desinflacionária da apreciação da moeda brasileira.

Ou seja, o BC tem a capacidade de colocar um piso nesse rali do impeachment em termos de cotação do dólar.

Há interlocutores desta coluna que projetam um dólar a R$ 3,40 no curto prazo se houver uma notícia mais firme apontando para uma aprovação do impeachment no Senado ou ainda sobre uma composição “market friendly” (que venha a agradar o mercado) de uma eventual troca de governo, se a presidente Dilma sofrer um impedimento.

Mas para conter a euforia sobre o rali do impeachment é preciso lembrar que os preços dos ativos não estão embutindo um revés desse processo ainda na Câmara.

Voltaria o dólar a disparar se o governo obtiver uma vitória na comissão especial do impeachment na Câmara ou no plenário?

Provavelmente, sim.

Mas o cenário base de analistas e investidores é de que o impeachment é um processo irreversível.

Assim, no curto prazo, o patamar provável do dólar está mais próximo de R$ 3,50 do que de R$ 4,00 – até que os fundamentos da economia brasileira voltem a ter prioridade nas análises do mercado.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast