0,50 ou 0,75?

Os fatores que vão influenciar a decisão de corte de juros de hoje (11/1, quarta-feira; a coluna foi publicada pelo Broadcast ontem, 10/1, terça-feira) pelo Copom.

Fernando Dantas

11 de janeiro de 2017 | 11h17

Amanhã (11/01), dia de decisão do Copom, ocorrerão por coincidência dois eventos importantes para “fazer a cabeça” da autoridade monetária: a primeira entrevista coletiva formal do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, desde que ganhou a eleição; e a divulgação do IPCA de dezembro.

No primeiro caso, aguardam-se novos sinais sobre se o homem que comandará os Estados Unidos a partir de 20 de janeiro vai se revelar o “bom Trump” (para os mercados), desregulamentando e dando mais um impulso fiscal para a maior economia do mundo – e desta forma corroborando o bom humor das últimas semanas de investidores e operadores, que está sendo muito benéfico para o Brasil e particularmente para o Banco Central; ou se revelará a face do “mau Trump”, com ameaças de protecionismo e de belicosidade no cenário internacional, piorando as perspectivas para o comércio global e criando riscos geopolíticos.

Neste segundo caso, não seria impensável que houvesse uma nova rodada de nervosismo nos mercados mundiais, com o efeito de desvalorizar o câmbio e aumentar os juros no Brasil – tudo o que Copom menos deseja.

No caso do IPCA, a questão crucial será ver se a inflação de serviços e, especialmente, o núcleo preferido do BC deste componente do índice vão confirmar o expressivo recuo registrado no IPCA-15 de dezembro, reforçando a ideia de que finalmente a fortíssima recessão está enfraquecendo a inércia inflacionária e desinflacionando os serviços em ritmo mais satisfatório.

(a coluna foi publicada ontem, 10/1; hoje, dia da sua postagem no blog, 11/1, já foi divulgado o IPCA de dezembro, com ótimas notícias sobre os serviços e os chamados “serviços subjacentes”, o núcleo preferido do BC)

Para Alexandre Póvoa, sócio-fundador da gestora Canepa, no Rio, o fator Trump é uma razão importante para o Copom anunciar uma redução de 0,5 ponto porcentual (pp) na Selic amanhã, e não de 0,75 pp. Póvoa considera que os mercados globais estão subestimando o risco de Trump na presidência, que poderia levar a novas ondas de aversão ao risco, dificultando o trabalho do BC.

Póvoa não considera que a batalha contra a inércia inflacionária esteja vencida. Ele não acha irrelevantes as divulgações mais recentes do IGP-M e do IPC-S, que vieram mais altos que o desejado, e nota que o fator excepcional na baixa inflação de novembro e dezembro foi o forte recuo dos alimentos (depois de uma alta igualmente excepcional). Póvoa elogia fortemente o trabalho de reancoragem das expectativas do atual BC, mas nota que “o ganho não foi em relação à inércia no curto prazo, mas sim em relação à expectativa de médio prazo, que vai eliminar a inércia no curto prazo mais adiante”.

Ainda assim, ele considera que, do ponto de vista doméstico, a relação risco-benefício, quando se consideram a perda de crescimento, o desemprego e o nível extremamente elevado do juro real, apontaria um corte de 0,75 amanhã. A razão para fazer 0,5 e esperar até 22 de fevereiro, na segunda reunião do ano, para ampliar o ritmo de corte para 0,75, para Póvoa, é basicamente ligada ao ambiente econômico global com Trump na presidência.

Alexandre Bassoli, economista-chefe do Opportunity Asset Management, também aposta em corte de 0,5 pp amanhã em função da comunicação recente do Banco Central. Ele nota que a projeção de crescimento do Copom de 0,8% em 2017 é até otimista nas atuais circunstâncias, pressupondo uma recuperação “relativamente vigorosa” quando se considera o carregamento estatístico negativo para este ano. Adicionalmente, a projeção de inflação de 4,5% para 2018 no chamado cenário de mercado do BC indica que o Copom não deve estar tão preocupado com a perspectiva de que o IPCA caia abaixo da meta no próximo ano.

Apesar da dimensão histórica da atual recessão, em termos de duração e profundidade, Bassoli acha que “não se deve superestimar o peso de uma decisão isolada (a de cortar 0,5 ou 0,75 pp amanhã)”.

Ele acrescenta que “o Copom caminha claramente na direção de um afrouxamento e é importante que seja sustentável – mais do que 0,5 ou 0,75, o que é importa é o movimento a estrutura a termo da taxa de juros, e é preciso consolidar a inflação mais baixa”. Bassoli lembra o altíssimo custo de desinflacionar a economia após o período inflacionário de 2010 a 2015: “Que a recessão não seja em vão, e sirva para consolidar a ancoragem”.

De qualquer forma, o economista do Opportunity prevê que haverá sinais mais incontroversos de que a inflação de 2018 vai cair abaixo da meta, levando o Copom a acelerar o ritmo dos cortes este ano mais adiante, de tal forma a levar a Selic a 9,25% no final de 2017, com a possibilidade de algum corte adicional.

Na corrente mais crítica do mercado e que vê amplo espaço para corte de 0,75 pp nesta quarta-feira, há a impressão de que atual diretoria do BC é muito cautelosa, e não tomaria a atitude ousada de elevar o ritmo do corte de 0,25 pp (das reuniões de outubro e novembro de 2016) para 0,75 amanhã. Mas espera-se que o Copom, caso opte pelo 0,5, pelo menos sinalize uma provável aceleração do ritmo para 0,75 na reunião de fevereiro. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 10/1/17, terça-feira.

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