IPCA de julho ainda não dá para comemorar

Fernando Dantas

14 de agosto de 2014 | 12h40

Em linha com a ênfase recente do diretor de Política Econômica do Banco Central, Carlos Hamilton, nos bons resultados mensais recentes da inflação, o IPCA de julho ficou em apenas 0,01%, abaixo do piso das estimativas do mercado. Hamilton fez apresentação ontem para divulgar o Boletim Regional Rio de Janeiro, na sede do BC no Rio.

O IPCA de agosto é um alívio para o BC, e pode ser particularmente útil para insular a autoridade monetária das pressões eleitorais, se for verdade – como consta de algumas análises sobre a ligeira recuperação da popularidade presidencial registrada na pesquisa do Ibope divulgada ontem – que a inflação corrente mensal mexe fortemente com o humor da população.

Mas a corrente do mercado que não vê sinais de melhora no front inflacionário não vê grandes motivos de comemoração no IPCA de hoje. Para estes analistas, a surpresa positiva se deve a alguns poucos itens, relacionados à “devolução” da alta de serviços ligados à Copa do Mundo e do choque de alimentos no início do ano.

Carlos Kawall, economista-chefe do banco J. Safra, mantém sua projeção de IPCA de 6,5% em 2014, e de Selic começando a subir em dezembro até estacionar, após quatro altas consecutivas, em 12,5%.

A projeção do IPCA de julho do J. Safra era de 0,06%, abaixo da mediana do mercado de 0,09%. “Estávamos mais próximos do resultado do que o mercado, mas ainda acima ficamos 0,05 ponto porcentual acima, o que significativo”, diz Kawall.

Ele acrescenta, porém, que dois itens explicam a surpresa em relação ao prognóstico do J. Safra. O primeiro foi a queda no preço dos hotéis no período pós-Copa, que foi mais rápida e mais intensa do que o projetado. O recuo dos hotéis foi de 7,65%, e contribuiu, junto com a redução das passagens aéreas, de 26,86%, para que os serviços registrassem deflação de 0,06% em julho.

Kawall aponta também a questão da queda da assinatura básica da Telefônica (referente a São Paulo, portanto) de 21% determinada pela Anatel, que levou a empresa a recorrer, sem sucesso, tendo posteriormente de aplicar uma redução retroativa. Segundo o economista, havia questões técnicas sobre como calcular essa redução. “Achamos que era um número e foi mais, e isso explica metade do erro da nossa projeção”, ele diz.

Para José Márcio Camargo, economista-chefe da gestora Opus, o baixo IPCA de agosto “é fundamentalmente sazonal e “pay-back” (devolução) da Copa”. Ele acrescenta que “não estou vendo tendência de redução estrutural da inflação”.

Segundo Camargo, a inflação de fundo está num nível próximo a 6,5%, variando de acordo com choques para cima e para baixo. Dessa forma, os alimentos no início do ano e a Copa foram choques positivos, que elevaram o índice, mas que ensejaram em seguida choques negativos, que ajudaram a conter a alta.

Permanecem no horizonte dos analistas a correção dos preços administrados e o câmbio, como potenciais causas de novos choques para cima. O aumento das tensões geopolíticas, especialmente na Ucrânia, contribuiu para levar a cotação do dólar para próximo de R$ 2,30, reacendendo a preocupação com possíveis novas rodadas de impactos cambiais sobre a inflação.

Camargo nota que os efeitos da situação geopolítica na atuação do Banco Central são complexos. Num sentido contrário ao da alta do câmbio, a crise da Ucrânia poderia jogar a Europa de volta à recessão. Ele lembra que o atual BC já deu mostras de ser muito sensível à situação internacional, e uma nova piora no cenário de atividade global, que poderia derrubar ainda mais a frágil economia doméstica, poderia levar o Copom a cogitar de corte de juros.

Kawall também acha que a situação geopolítica e seus desdobramentos são a grande incógnita do atual cenário. Ainda assim, ele acha que a continuidade da recuperação do mundo desenvolvido, especialmente dos Estados Unidos, deve ser o fator prevalecente na determinação das condições financeiras internacionais à frente.

“Acho cada fez mais provável que entremos em um período de alta de juros lá fora, e isso é uma das razões para nossa projeção de câmbio de R$ 2,45 no final do ano”.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 8/8/14, sexta-feira.

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