2021 incomoda BC

Expectativas e projeções de inflação bem abaixo da meta no ano que vem fazem Copom novamente deixar a porta ligeiramente entreaberta para um pequeno ajuste adicional da Selic para baixo, apesar da insegurança causada pela indefinição fiscal.

Fernando Dantas

07 de agosto de 2020 | 10h51

O comunicado do Copom teve um tom mais sóbrio em relação à recuperação da economia brasileira do que as recentes comunicações públicas dos seus membros, na avaliação de Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX no Rio.

Segundo a analista, isso compõe o quadro de um BC que está sensível ao fato de que as expectativas e projeções do IPCA para 2021, em torno de 3%, estão razoavelmente abaixo da meta de 3,75%.

Economia no chão, um hiato do produto descomunal e expectativas abaixo da meta são a combinação que incomoda o Copom, e que faz o comitê manter a porta ligeiramente entreaberta para novas reduções da Selic, apesar do temor do que pode derivar da situação fiscal potencialmente explosiva.

Espremido entre essa duas inquietações, o BC se saiu com a fórmula de que novos cortes “ocorreriam com gradualismo adicional”, o que deixou o mercado confuso. Seria referência a inédito corte de 0,125 ponto porcentual, ou um espaçamento de duas reuniões do Copom até a próxima redução da Selic?

Simultaneamente, o Copom introduziu um forward guidance (orientação prospectiva) no jogo, ao escrever que altas da Selic só ocorrerão se as expectativas e a projeção do BC da inflação de 2021 (principalmente) e 2022 estiverem suficientemente próximas das metas.

Dá uma impressão acaciana, mas o BC apontou no comunicado que aquela postura se dá apesar da “assimetria do balanço de risco”. Essa assimetria é o fato de que o risco inflacionário proveniente da incerteza fiscal e de um efeito maior do que o esperado dos estímulos econômicos da pandemia é maior, para o Copom, do que o risco desinflacionário de uma ociosidade mais profunda do que a percebida e uma reversão mais lenta da Covid-19.

Ainda assim, a autoridade monetária sinaliza estar mais propensa a reagir com mexidas na Selic, no curto e médio prazo, diante do risco desinflacionário (menor) do que do inflacionário (maior).

Isso, em tese, pode ser uma alternativa a tentar estimular a economia baixando mais a Selic: em vez de cortar, ou em vez de cortar de forma mais pronunciada (já que o pequeno ajuste com “gradualismo adicional” pode ocorrer), o Copom promete manter a taxa básica no baixíssimo patamar atual por mais tempo.

Mas Solange nota que o poder do forward guidance no Brasil é muito limitado, não por culpa do BC, mas por causa da fragilidade fiscal.

O próprio BC aponta isso, ao condicionar, no comunicado. o forward guidance “à manutenção do atual regime fiscal e à ancoragem das expectativas de inflação de longo prazo”.

Em outras palavras, não há compromisso de manter os juros no baixíssimo nível atual por um longo período caso a casa fiscal vá pelos ares. Nesse ponto, o BC foi sensato: não há forward guidance que resista a um país emergente brincando de fogo com as contas públicas.

Samuel Pessoa, pesquisador do Ibre/FGV e sócio-diretor do Julius Baer Family Office, achou positivo que o comunicado não tenha tocado em temas como a possibilidade de um hiato bem menor do que o percebido ou um limite inferior de taxa de juros em economia emergente.

Para o economista, essas são discussões muito especulativas, e o BC trazê-las ao debate público sobre política monetária “traz mais ruído do que esclarecimento”.

Ele considera que está de bom tamanho o Copom justificar o “pequeno” espaço remanescente para corte da Selic por preocupações com questões prudenciais e de estabilidade financeira. É uma preocupação que Pessôa diz entender e que considera adequada.

Solange tem a mesma preocupação. Porém, no seu caso, ela pensa inclusive que o BC nem deveria deixar a porta aberta para pequena redução adicional da taxa básica. Para a economista, isso fará pouca diferença em termos de inflação e atividade, e pode aumentar o risco de que o desarranjo fiscal leve de forma súbita a uma desvalorização descontrolada, fuga da moeda e busca de ativos reais (ela não quer dizer que esse seja um risco iminente).

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 7/8/2020, sexta-feira.