2021 mantém o ritmo, mas 2022…

Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) de julho indica que, fora a indústria, afetada por problemas de oferta, a economia continua a se recuperar este ano. Mas, como explica economista Luana Miranda, da Gap Asset, 2022 é outra história.

Fernando Dantas

15 de setembro de 2021 | 10h56

A Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) de julho veio sem surpresas, colada nas expectativas do mercado. O resultado tende a reforçar que, apesar de muitos problemas e fortes riscos, a retomada em 2021 parece continuar nos trilhos por enquanto.

Luana Miranda, economista da Gap Asset, no Rio, nota que, em termos de atividade, serviços e varejos continuam apontando para cima, enquanto a indústria vem destoando, mas por conta dos gargalos de oferta.

Em relação a fevereiro de 2020, parâmetro imediatamente anterior à pandemia, o varejo restrito teve alta de 5,9%. O varejo ampliado (inclui veículos e materiais de construção) elevou-se 2,8% na mesma comparação. Os serviços tiveram alta de 3,9%. Todos os dados são dessazonalizados.

No caso desses três indicadores, o nível de julho de 2021 é o mais alto desde pelo menos o início de 2019.

O caso da indústria é diferente, com queda de 2,1% entre fevereiro de 2020 e julho de 2021. O mais relevante, contudo, é notar que a indústria chegou a acumular alta de 3,5% no seu pico mais recente em janeiro de 2021, e, a partir desse ponto, vem basicamente caindo, com algumas oscilações.

O diagnóstico aqui é claro. No Brasil e no mundo, a produção de matérias-primas, insumos e bens finais em muitas cadeias físicas de valor está estrangulada por problemas de oferta e logísticos.

Luana nota que os protagonistas da atividade até o final de ano são os serviços, especialmente aqueles que mais foram prejudicados com a pandemia e, portanto, têm mais espaço para se recuperar rapidamente, rumo ao nível normal.

Não são, nem de longe, todos os serviços. O setor inteiro já está 3,9% acima do nível pré-pandemia (fevereiro de 2020). Segmentos como ‘serviços de informação e comunicação’ e ‘transportes, serviços auxiliares aos transportes e correios’ já estão, respectivamente, 9,6% e 6,9% além do pré-pandemia.

Onde a coisa pega é nos ‘serviços prestados às famílias’, que são apenas 8,2% dos serviços como um todo, mas ainda estão num nível 23,2% inferior ao pré-pandemia.

São os serviços mais afetados pela redução da circulação de pessoas e por restrições típicas da pandemia, como interrupção de aulas e de atendimentos de rotina em hospitais assoberbados pela Covid. Aí estão também restaurantes, bares, hotéis, pousadas, quase todo o lazer fora de casa (teatros, cinemas, shows, futebol) e atividades como cabelereiros, salões de beleza, academias etc.

Não por acaso, com o avanço da vacinação e o recuo da pandemia, é daí que tem vindo o crescimento mais rápido no âmbito dos serviços.

Em julho, os serviços prestados às famílias cresceram 3,8% ante junho na série dessazonalizada. Isso se compara, na mesma base, a -0,4% dos serviços de informação e comunicação; 0,6% dos serviços profissionais, administrativos e complementares; -0,2% dos transportes, serviços auxiliares aos transportes e correios; e -0,5% dos outros serviços.

Como nota Luana, “se as famílias demonstrarem menos ímpeto de consumir serviços por medo da variante delta, isso é um risco”.

Mas é provável?

Com o que se pode enxergar até aqui, a economista pensa que nem tanto.

No município do Rio, onde se concentra a população da unidade da Federação atingida de forma mais potente pela delta, o pior parece ter ficado para trás quando se analisam as internações por Covid em enfermarias e UTIs.

Em termos de UTI, em meados de julho, após longa queda, a média de sete dias seguidos (indicador usado em todas as comparações a seguir) das internações estava em 430. A delta levou esse número para mais de 580 no final de agosto, mas ele já voltou para cerca de 425.

No caso das internações em enfermaria, a longa queda desde abril levou o número a aproximadamente 220 no início de agosto, mas a delta o empurrou de volta para 350 no final do mesmo mês. Agora, já recuou para algo em torno de 270.

Já no Estado de São Paulo, onde a delta também fez penetração considerável via capital, os internados em UTI e enfermaria vêm caindo desde o pico da segunda onda (final de março, início de abril), com uma oscilação para cima em maio e junho, mas que já ficou muito para trás. O nível, tanto de um indicador quanto do outro, é hoje o menor de toda a pandemia.

Na região metropolitana de São Paulo, porém, há uma reação na ponta (para cima) da taxa de utilização de UTIs, com destaque para os hospitais municipais da capital.

De qualquer forma, como nota Luana, a média mensal de mobilidade relativa a varejo e recreação, medida pelo Google, se encontra, no Brasil como um todo, no nível mais alto desde a queda inicial com a drástica quarentena de março e abril do ano passado.

No conjunto, analisa a economista, “com o avanço da vacinação, e níveis de internações nos melhores momentos da pandemia, é de se esperar que o PIB continue avançando, puxado pela volta às aulas, normalização de atendimentos de saúde e consumo de serviços mais relacionados ao turismo e lazer”.

Assim, ela por enquanto não tem por que reduzir sua projeção de 5,2% para o crescimento do PIB este ano.

2022, porém, é toda uma outra história, com inflação, crise política, repercussões da crise energética etc.

“Aí vai pesar o aperto monetário e das condições financeiras, a volatilidade típica de ano eleitoral, com eleições super polarizadas; nosso número para 2022 é 1,7%”, conclui a economista.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 14/9/2021, terça-feira.