2021 será um longo ano

Chegando a 2022, é bem possível que Bolsonaro tenha ventos a favor na economia e na política para sua reeleição. Mas a travessia de 2021 se torna cada vez mais difícil.

Fernando Dantas

27 de fevereiro de 2021 | 13h02

Em recente entrevista neste espaço, Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual e ex-secretário do Tesouro, indicou como 2021 é o ano crítico da travessia de Jair Bolsonaro na tentativa de garantir um segundo mandato presidencial.

Na seara fiscal, o teto de gastos está apertadíssimo este ano, devendo levar as despesas discricionárias para seu mais baixo nível desde que o indicador é calculado. O risco de atrasos de pagamentos e paralisação de áreas específicas da administração federal é real. Investimentos no mínimo histórico vão acelerar a deterioração da infraestrutura a cargo da União.

Em 2022, porém, por causa de uma combinação favorável entre indicador/periodicidade dos indexadores do teto e das despesas obrigatórias, o governo vai poder gastar e investir mais do que em qualquer outro ano do governo Bolsonaro.

E tem mais, obviamente. Mesmo na hipótese mais pessimista sobre a campanha de vacinação no Brasil em 2021, o cenário de todo mundo é que, ano que vem, a pandemia esteja superada. É possível que isso leve a economia a andar com força em 2022.

O cientista político Jairo Nicolau, em seu livro “O Brasil
Dobrou à Direita” e em pesquisas recentes, vem mostrando como a base de apoio de Bolsonaro é muito mais robusta do que apenas os extremistas de direita.

A união do presidente com o Centrão, no âmbito da Legislatura mais à direita em muitas décadas, faz de Bolsonaro, na visão do pesquisador, um líder conservador com grande capacidade de comunicação com a massa do eleitorado. Em alguns segmentos, como o dos evangélicos, essa vantagem do atual presidente é massacrante.

Assim, supondo que Bolsonaro “sobreviva” a 2021, pode chegar no ano eleitoral com a economia crescendo, dinheiro para gastar e uma base eleitoral segura a partir da qual buscará uma fatia majoritária do eleitorado.

O problema, porém (e aqui não é mais Nicolau que opina), é sobreviver a 2021. Nuvens de tempestade crescentemente pesadas estão se acumulando no horizonte.

A segunda onda da Covid-19 se mostra cada vez pior. A média semanal do número de mortes registradas (não ocorridas) a cada dia, na contagem do Ministério da Saúde, está em alta, e, acima de 1.100, já supera o recorde da primeira onda.

Relatos sobre superlotação, falta de vagas e episódios de colapso da rede hospitalar surgem simultaneamente de diversas partes do País. Crescem as indicações de que as novas cepas do coronavírus, mais transmissíveis, podem ser uma das explicações para a virulência da segunda onda.

A vacinação, por sua vez, parece cada vez mais uma arma cujo efeito acontecerá no médio, e não no curto prazo.

A experiência de países que estão avançados na imunização da população, como Israel e, em escala menor, Estados Unidos, indicam que a vacina de fato reduz contaminações e mortes e deve acabar com a pandemia.

O problema é que a maioria dos países, como o Brasil, ainda está muito longe de imunizar um percentual da população suficiente para que haja um efeito significativo na progressão da doença.

Dessa forma, tudo indica que a pandemia vai piorar antes de melhorar.

O efeito na economia é direto. O crucial setor de serviços, que vinha gradativamente se reabrindo, deve reverter a tendência (ou melhor, já está revertendo). Restaurantes que chegaram a encher em outubro voltaram a ficar vazios. Viagens são canceladas.

Dá-se muita atenção a aglomerações de jovens em bares e de pessoas nas praias, mas de forma mais discreta e pulverizada a oferta e demanda por serviços se contrai novamente, como já se refletiu em indicadores de dezembro.

Medidas oficiais de restrição de circulação também são implementadas por cidades e estados. Hoje, o Paraná decidiu fechar serviços não essenciais (a partir de meia noite) e ampliar o toque de recolher para o  período das 20h às 5h.

Muitos analistas preveem que o PIB vai recuar neste primeiro trimestre. O mercado de trabalho, apesar de alguma recuperação desde o pior momento da pandemia, ainda se encontra no pior estado em muitas e muitas décadas.

A atividade rateando vai piorar as coisas, e o desemprego e a retração de renda devem bater com mais força.

Com a queda recente da popularidade de Bolsonaro, cresce a tentação de ser mais generoso na reedição do auxílio emergencial.

Correntes no Congresso acenam com a possibilidade de aprovar o auxílio agora, com orçamento em aberto, e deixar para depois as medidas (muito brandas, e 100% de médio prazo) de compensação fiscal.

Para piorar a incerteza, Bolsonaro interveio num rompante na Petrobrás, num gesto populista que coloca em xeque toda a agenda liberal de Guedes – inclusive na área fiscal.

Os termômetros do mercado já refletem a febre político-econômica. A bolsa cai forte, o dólar sobe mesmo com as intervenções do BC e a curva de juros está superempinada.

O Banco Central está no pior dos mundos: inflação e expectativas inflacionárias em alta, e atividade em baixa, em meio a forte incerteza sobre o regime fiscal.

O que salva é que o mundo ainda está relativamente favorável, com a retomada econômica na China e nos Estados Unidos e a alta das commodities que o Brasil exporta.

Mas há um risco pela frente. A “mãe” de todos os pacotes de impulso fiscal que Biden quer implementar, numa economia já previamente turbinada por impulsos monetários e fiscais, pode – para alguns analistas – provocar inflação nos Estados Unidos.

Se isso ocorrer e as taxas de juros americanas tiverem uma alta súbita e forte, pode ser o gatilho para crises macroeconômicas agudas em países emergentes vulneráveis como o Brasil. Seria o chamado “Deus nos acuda”.

Outra nuvem feia no horizonte é o destino de Paulo Guedes no governo, abordada hoje (sexta, 26/2) no Broadcast pelo meu colega Fábio Alves.

Será um longo 2021.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 26/2/2021, sexta-feira.