2022 e o mercado

Eleições do ano que vem ainda não entraram para valer no radar do mercado, mas sinais da política fiscal deste governo e do discurso econômico dos favoritos não augura bem para os ativos brasileiros em 2022.

Fernando Dantas

11 de outubro de 2021 | 10h58

As eleições de 2022 ainda não entraram com tudo no radar de eventos que de fato mexem com o preço dos ativos brasileiros, mas gradativamente se farão presentes. Como movimento inicial, as preocupações se voltam para os danos potenciais no arcabouço e política fiscais de um governo que vai adentrar o ano de reeleição com a popularidade minguando. E tendo como arma restante a caneta presidencial.

Neste momento, a “solução” de reduzir o pagamento de precatórios a R$ 40 bilhões em 2022 do relatório da PEC do deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), que libera R$ 50 bilhões para o Auxílio Brasil e outros gastos eleitorais, é uma iniciativa que parcela e acumula para o futuro dívidas da União.

É um improviso com as digitais de gambiarra eleitoral, e não há boa vontade no mundo para considerar que, de alguma forma, essa mudança possa ser considerada um avanço no arcabouço fiscal relativamente ao problema dos precatórios.

A equipe econômica liderada por Paulo Guedes aparentemente endossa essa solução, mas esse assentimento parece não ser suficiente para aplacar o desconforto do Centrão com técnicos que podem fazer cara feia para os planos eleitoreiros em relação ao orçamento.

Como observou o analista político Ricardo Ribeiro, da Consultoria MCM, em relatório divulgado hoje, “o Centrão colocou Paulo Guedes para fritar na Câmara dos Deputados”.

Na intepretação de Ribeiro, os 310 votos de deputados pela convocação de Guedes – desconsiderando a hipótese mais amena do convite – para prestar esclarecimentos sobre sua conta offshore é um claro sinal de que o ministro é alvo dos parlamentares, com beneplácito de Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, e do Centrão.

Estes, por sua vez, segundo o analista da MCM, não parecem ter a intenção de derrubar Guedes, mas sim de fazer com que o ministro “seja mais cordato, por assim, dizer, com as variadas demandas do grupo, por cargos, pela liberação de recursos para emendas parlamentares e por mais gastos de caráter eleitoral em 2022”.

Para Ribeiro, “se o ministro eventualmente cair, a turma do Centrão não lamentará”.

Esses riscos, entretanto, talvez sejam apenas a ponta do iceberg da potencial turbulência que aguarda os mercados no ano que vem.

Para além do horizonte curto do que acontecerá com as contas públicas em 2022, à medida que avançar o ano eleitoral as atenções se voltarão para o que o próximo presidente fará na economia.

Quando se analisam as pesquisas eleitorais hoje, vê-se que os destaques vão para três nomes. Dois deles, Lula, o campeão disparado das intenções de voto no momento, e Ciro fazem questão de manifestar, sempre que podem, sua hostilidade à política econômica mais ortodoxa e liberal que em tese prevalece desde o governo de Michel Temer, iniciado em 2016.

O terceiro nome é o do próprio Bolsonaro, cuja adesão ao liberalismo aparenta ser cada vez mais tênue à medida que se deterioram o prestígio e o poder de Guedes.

Tanto Lula quanto Ciro têm nos seus respectivos currículos períodos em relação aos quais podem reivindicar a certificação de responsabilidade fiscal. O ex-presidente no seu primeiro mandato, e o político cearense como governador do Ceará.

O problema é que nem um nem outro parecem particularmente interessados nisso na atual fase de suas vidas políticas, e atiçar a turbulência econômica num ano eleitoral para derrotar o incumbente é uma estratégia que já entregou resultados no Brasil.

Dessa forma, num ano eleitoral em que a fragilidade macroeconômica do Brasil, combinada a um cenário internacional incerto, já pode por si só piorar o risco, não se deve esperar que os protagonistas eleitorais atuem como bombeiros.

Antes que 2022 entre para valer no radar do mercado, é prudente apertar o cinto de segurança.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 8/10/2021, sexta-feira.