coluna

Thiago de Aragão: investidor estrangeiro vê como irreal promessa de Guedes de 4 privatizações em 90 dias

Populismo, no mundo e no Brasil

Riscos derivados de líderes políticos hoje são os que mais ameaçam a economia brasileira e global.

Fernando Dantas

15 de novembro de 2019 | 20h42

O índice de Incerteza Política e Econômica Global (GEPU, da sigla em inglês “Global Economic Policy Uncertainty”), capitaneado pelos acadêmicos Scott Baker, Nick Bloom e Steven Davis, registrou em outubro um nível de 300,8, com algum recuo ante o recorde histórico de 359,3 em agosto deste ano.

Esse nível de 300 ou mais é extremamente alto, já que a média do período usado para padronização do índice – 1997 a 2015 – é de 100. O GEPU, baseado em notícias de jornais, é composto com subíndices de 20 países, incluindo o Brasil.

O mundo, portanto, anda extremamente incerto, e este é um dos principais riscos que pesa sobre as perspectivas de continuidade na morosa retomada da economia brasileira. Mas o que pode dar errado, e por quê?

Para alguns analistas, como José Júlio Senna, do Ibre/FGV, a atual marcha lenta da economia global já configura um fator negativo para o Brasil, porque priva a atividade econômica nacional de estímulos externos, retardando a recuperação. O baixo crescimento do PIB, por sua vez, que comprime o denominador dos principais indicadores de solvência, torna-se um fator potencial de risco.

Mas esse é um problema que pode aumentar ainda mais, se a própria economia norte-americana, que ainda tem o melhor desempenho no mundo rico, entrar em recessão.

Em recente artigo, o respeitado economista Rhaguram Rajan, ex-presidente do Reserve Bank of India (RBI, o banco central), escreve que o maior risco para a economia americana (e, em consequência, para a global) no momento não é a alta da taxa de juros nem o estouro de bolhas financeiras, mas sim crises em áreas como comércio exterior e geopolítica.

Dessa forma, o risco, para o economista, reside na imprevisibilidade e irracionalidade de líderes políticos como Donald Trump e outros “homens fortes” ou regimes de força que comandam muitos países hoje, inclusive no volátil Oriente Médio. Ele cita especificamente uma eventual disparada do preço do petróleo, que poderia ser causada por um quiproquó geopolítico, como algo que poderia deflagrar uma recessão global.

O alerta de Rajan está em linha com o que vem escrevendo o prestigiado colunista Martin Wolf, do Financial Times. Em seu último artigo, Wolf descreve como os Estados Unidos, com Trump, estão reagindo de forma equivocada ao que talvez seja a inevitável ascensão da China ao status de maior potência econômica do mundo (até por ter uma população muito maior que a americana).

Na visão do articulista, em um futuro não tão distante, a economia americana pode até se tornar menor que a chinesa, mas os Estados Unidos ainda reteriam diversos trunfos para exercer certa liderança mundial: uma democracia com estado de direito, uma economia de livre-mercado e aliados poderosos economicamente.

Essas características, para Wolf, são fontes de “admiração, dinamismo e força”, mas os Estados Unidos de Trump estão corroendo as três, com a atuação iliberal de Trump na política, a ascensão de um tipo de capitalismo rentista e o péssimo tratamento atual reservado a aliados, como a Alemanha.

O fato é que a governança global parece ter se deteriorado muito nos últimos anos. Em entrevista ao programa Roda Viva esta semana, o celebrado historiador israelense Yuval Noah Harari – autor dos best-sellers Sapiens e Homo Deus – observou que, se a grande crise financeira global tivesse ocorrido hoje, e não em 2008-2009, é provável que não se conseguisse chegar à concertação global de políticas econômicas que evitou as piores consequências na ocasião.

No pequeno pedaço do mundo que é o Brasil, os riscos de governança associados a lideranças populistas – o mal que Rajan e Wolf identificam – recaem mais na política do que na economia. Nesta segunda seara, bem ou mal Bolsonaro parece ter terceirizado o comando para Paulo Guedes que, com erros e acertos, pelo menos tenta seguir o caminho da racionalidade.

Na esfera política, contudo, Bolsonaro, filhos e aliados radicais jogam toda a gasolina na fogueira que conseguem. Com uma agenda de reforma de Estado ambiciosa e pesadíssima enviada ao Congresso, o presidente resolve chutar o pau da barraca do PSL e criar um novo partido para si e seu movimento.

O risco econômico externo combinado ao risco político doméstico configura, no momento, a maior ameaça à frágil recuperação econômica brasileira.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/11/19, quarta-feira.

Tendências: