Crédito pessoal pode ser freio do PIB em 2012

Fernando Dantas

29 de março de 2012 | 19h30

Neste início de ano, com toda a incerteza sobre o ritmo de retomada da atividade econômica, alguns economistas estão prestando uma atenção toda especial ao crédito à pessoa física. Um dos motores, junto com a expansão da renda e do aumento no consumo das famílias nos últimos anos, o crédito pessoal pode ser o fiel da balança entre o crescimento do PIB que vai satisfazer ou decepcionar o governo em 2012.
 
A divulgação no ultimo dia 27, pelo Banco Central, da Nota para a Imprensa sobre Política Monetária e Operações de Crédito reforçou a posição dos que veem a desaceleração da expansão do crédito, especialmente à pessoa física, como um freio importante da atividade econômica em uma parte considerável de 2012.

Em relatório que circulou logo depois da divulgação da Nota para a Imprensa, o Credit Suisse notou que a desaceleração “reforça a tendência de deterioração na composição das carteiras de crédito, especialmente no segmento de empréstimos para pessoas”. Segundo o banco, “indicadores recentes não apontam uma melhora das condições de crédito em seguida à deterioração de 2011, e a persistência desta dinâmica pode atrapalhar uma retomada forte da atividade no curto prazo”.

Tomando o total do crédito nos segmentos livre e direcionado, houve um crescimento de 17,3% em fevereiro, ante o mesmo mês de 2011, que foi inferior à expansão de 18,4% em janeiro, na mesma base de comparação. No segmento livre, a alta em fevereiro foi de 15%, comparada com 16,6% em janeiro e 17,6% em fevereiro de 2011 (sempre na comparação com os mesmos meses dos anos anteriores).

Nos empréstimos às pessoas físicas, o crescimento do crédito livre caiu de 16,8% em janeiro para 15,5% em fevereiro. Por segmentos, a queda foi de 8,4% para 6,6% em automóveis e leasing; de 17,2% para 16,4% no consignado, e de 26,8% para 24% nas demais categorias.

Já a taxa de inadimplência (mais de 90 dias) para o crédito total permaneceu em 5,8%, ficando estável também no caso das pessoas físicas, em 7,6%. A taxa de empréstimos vencidos e não pagos entre 15 e 90 dias aumentou ligeiramente para pessoas e empresas.

Em relatório mais detalhado de 13 de março, o Credit Suisse alertava que qualquer recuo do alto comprometimento da renda das famílias com juros e amortização do crédito pessoal depende da redução dos spreads bancários e do aumento do prazo médio das operações.

Além disso, notava que a inadimplência elevada poderia dificultar a aceleração do crédito nos próximos meses, reduzindo as chances de uma retomada econômica mais forte no curto prazo.
 
O banco projeta que o comprometimento da renda tenha saltado de 19,8% em dezembro de 2010 para 22,7% em dezembro de 2011. Para dezembro de 2012, mesmo num cenário em que supõe a redução dos juros médios de cada modalidade da pessoa física para o nível de outubro de 2010, o menor da história, e uma elevação do prazo médio da mesma dimensão da ocorrida em 2008, o Credit Suisse projeta um recuo do comprometimento de renda para apenas 22,4%.

Num cenário menos otimista, com estabilidade dos juros e do prazo médio de todas as modalidades no nível ao final de 2011, o comprometimento daria mais um salto, para 23,7%, da renda em dezembro de 2012. 

O relatório aponta que o comprometimento de renda é provavelmente uma das causas do aumento da inadimplência (mais de 90 dias) da pessoa física de 5,8% no primeiro trimestre de 2011 para 7,6% em janeiro e fevereiro de 2012. A inadimplência em alta, por sua vez – a média desde junho de 2000 é de 7% -, aumenta a percepção de risco dos bancos, o que pode ter impactos nos spreads e nos volumes de crédito concedidos. Em fevereiro, mesmo com a trajetória de queda da Selic (taxa básica de juros), a taxa média anual dos empréstimos a pessoas físicas subiu de 45,1% para 45,4%.
 
“O cenário mais provável hoje é a expansão do crédito à pessoa física ser menor e o comprometimento de renda com juro e amortização tender a aumentar”, resume Nilson Teixeira, economista-chefe do Credit Suisse.
 
Carlos Kawall, economista-chefe do banco J Safra, tem visão semelhante. Em conversa anterior à divulgação dos dados de crédito de fevereiro nessa terça-feira, ele notava que “a taxa de juros e os spreads (do crédito à pessoa física) subiram violentamente quando o BC adotou as medidas macroprudenciais no fim de 2010”.
 
Posteriormente, ele acrescentou, essas taxas iniciaram um movimento de queda, mas ainda estão em nível bem superior ao do fim de 2010.

Ele observa ainda que o crescimento da inadimplência das famílias em 2011 aconteceu mesmo com um mercado de trabalho espetacular e a renda em alta.
 
Para Kawall, “houve um excesso na concessão de crédito para a pessoa física e agora a gente está vivendo um pouco a ressaca, o que limita o potencial de crescimento da economia no curto prazo”.

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