A agenda liberal e as eleições

Fernando Dantas

15 de julho de 2013 | 21h00

Se a economia crescer abaixo de 2% neste ano e no próximo, como preveem alguns analistas, é possível que o crescimento econômico em todo o governo da presidente Dilma Rousseff seja igual, ou até ligeiramente inferior, ao registrado apenas em 2010, último ano do mandato do seu antecessor e mentor político, Luiz Inácio Lula da Silva. O Brasil cresceu 7,5% em 2010.

Supondo um crescimento médio um pouco acima de 2% nos dois últimos anos do mandato de Dilma – uma hipótese que hoje soa até otimista –, o crescimento ao logo dos quatro anos da presidente poderia ficar em torno de 8,5%, com uma média próxima de 2%. Como se vê, ainda assim, em quatro anos se terá crescido apenas um pouco mais do que a expansão do PIB apenas no último ano de Lula.

Fica claro, portanto, que a política econômica da presidente – pelo menos enxergada da perspectiva do momento atual – não deu certo. Como Dilma acentuou mudanças em direção à heterodoxia e ao intervencionismo que começaram a tomar corpo ainda no governo Lula, é natural que este modelo, que chegou a ser chamado de “nova matriz econômica” esteja em xeque. E é natural também que, neste ambiente, ganhe força a crítica ortodoxa e liberal às escolhas de política econômica do atual governo.

Neste domingo, foi publicada pelo Estadão contundente entrevista de Pérsio Arida, um dos pais do Plano Real, em que este basicamente reafirma a agenda de política econômica que guiou os governos tucanos que antecederam a era petista, mas que sobreviveu no início da era Lula com Antônio Palocci no ministério da Fazenda. A entrevista, concedida aos jornalistas David Friedlander e Ricardo Grinbaum, é particularmente importante porque Arida é considerado um dos mais brilhantes economistas do País, e tem sido uma voz pouco frequente no debate público nos últimos anos.

A receita por ele pregada lista o rol de recomendações tradicionais dos economistas liberais no Brasil: contenção dos gastos públicos, inflação mais baixa, redução do Estado e da carga tributária, corte de subsídios a empresas privadas, controle da expansão do crédito dos bancos públicos, abertura comercial e busca de acordos de comércio com Estados Unidos e Ásia, com menos prioridade para o Mercosul.

É significativo que a entrevista de Arida tenha acontecido pouco depois da publicação pelo jornal Valor Econômico de um longo artigo do economista André Lara Resende sobre o significado dos recentes protestos populares no Brasil. Lara Resende e Arida foram os autores do famoso trabalho acadêmico, conhecido como plano “Larida”, que deu origem ao Plano Real. Os dois estão profundamente associados à gestão tucana da economia, e foram bastante discretos na sua intervenção no debate público desde o fim do governo de Fernando Henrique Cardoso.

O texto de Lara Resende fugiu mais do debate econômico tradicional, mas uma de suas linhas-mestras está plenamente identificada com a visão da economia associada aos tucanos na discussão política no Brasil. Para o economista, o Estado brasileiro está excessivamente voltado ao bem estar dos seus próprios integrantes, e é por isso mesmo que os serviços prestados à população são tão caros e insatisfatórios.

Em suma, trata-se da bem conhecida crítica liberal ao setor público, cujos incentivos – quando não contidos por uma deliberada política de governo – o empurram para o fisiologismo e a ineficiência.

As intervenções de Arida e Lara Resende, somando-se ao coro de críticas à política econômica procedente de consultores e analistas do mercado financeiro, deixam claro que o discurso ortodoxo ganhou um fôlego renovado na atual conjuntura brasileira.

Uma grande questão, porém, é qual será o escoadouro político desse novo despertar do pensamento liberal. Há uma visão, e quase uma torcida, de que o pré-candidato tucano, Aécio Neves, assuma a vigorosa crítica ao fracasso da nova matriz econômica como um dos motes principais da sua campanha eleitoral.

Esse terreno, porém, é bem mais escorregadio do que possa parecer à primeira vista. Em primeiro lugar, o País mudou muito para que se suponha que exatamente o mesmo conjunto de ideias que fazia sentido como plataforma política em meados da década de 90 mantenha-se plenamente atual.

É claro, por um lado, que o País passa por uma crise no seu modelo de crescimento. É bem possível que a retomada das ideias econômicas que vigoraram até 2005 seja importante para destravar a expansão do PIB. E, sem recolocar a economia num nível mais satisfatório de crescimento, será muito difícil resolver qualquer problema nacional.

O que é menos óbvio é que a crítica à heterodoxia econômica possa ser a peça principal do eixo de atração da população brasileira, e especialmente da decisiva (em termos eleitorais) classe C, para um novo projeto de desenvolvimento.

Nas manifestações das ruas, ficou claro que a população não tolera a inflação. Mas a forma de combatê-la, se ortodoxa ou heterodoxa, não parece preocupar muitos os brasileiros (isso não quer dizer que qualquer uma sirva).

Por outro lado, ficou muito evidente que os eleitores querem um Estado que funcione muito melhor do que o atual em termos de serviços básicos como saúde, educação, segurança, etc. Novamente, o povo nas ruas não parece muito preocupado sobre como isto será feito – se gastando mais dinheiro para investir na qualidade e subsidiar a redução dos preços, que os técnicos sabem ser uma saída insustentável no longo prazo; ou se melhorando a eficiência da máquina pública, o que implica enxugamento e cobrança de qualidade.

Um ponto importante da repercussão política das manifestações foi que a popularidade de todos os governantes de alguma forma envolvidos com as reclamações das ruas caiu, e não apenas a da presidente Dilma Rousseff. O fenômeno atingiu o grupo de quatro governadores e prefeitos responsáveis pelas duas maiores aglomerações urbanas do País, São Paulo e Rio. Desta forma, foi uma perda de popularidade democraticamente distribuída entre as principais figuras dos três principais partidos do País, PT, PSDB e PMDB.

Assim, não está claro que as ruas estejam clamando por uma volta do modelo político-econômico anterior ao do governo petista, mas sim que estejam pressionando por mudanças cuja natureza mais profunda apenas se começa a vislumbrar. A cobrança de qualidade do Estado, mais do que a sua demonização, parece ser uma delas.

Tudo isso não quer dizer que a oposição tucana não deva aproveitar o momento de aparente fracasso da política econômica heterodoxa para fazer a sua crítica, a partir de uma perspectiva mais liberal. Aliás, é muito importante que o PSDB explore esta oportunidade, para reafirmar sua identidade ideológica, tão vergonhosamente escondida nos últimos pleitos eleitorais.

O fundamental, porém, é não achar que a agenda liberal é uma espécie de bala de prata para 2014. Os novos tempos políticos que se descortinam para o Brasil provavelmente serão muito diferentes dos anos 90, e os embates decisivos devem envolver temas que não estavam presentes naquela época. Tanto para o governo quanto para a oposição, a capacidade de dar respostas factíveis às novas demandas será mais decisiva para o sucesso eleitoral do que a reedição dos debates do passado.

Esse post foi publicado originalmente na AE-News Broadcast

 

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