A autenticidade belicosa de Bolsonaro

Quais as implicações para o atual governo da torrente de declarações presidenciais que chocam (muitas vezes com razão) os bem pensantes? Com a contribuição de uma instigante análise de Ricardo Ribeiro, da MCM.

Fernando Dantas

29 de julho de 2019 | 10h18

Por que o presidente Jair Bolsonaro teima em dizer coisas e tomar posições que escandalizam os bem pensantes do País? Em um interessante texto publicado pela consultoria MCM, em que trabalha, o analista político Ricardo Ribeiro tece pertinentes comentários sobre essa questão, que pode ter impacto bastante significativo no futuro do atual governo.

A questão básica é a “autenticidade”, palavra que Ribeiro destaca em seu artigo. Ao não se curvar às convenções do establishment intelectual, para o qual muitas das suas declarações soam como barbaridades (e de fato frequentemente são, na opinião deste colunista), Bolsonaro aproxima-se do “homem comum” com inclinações direitistas, que é o seu nicho eleitoral básico.

O analista político nota que “tal característica é celebrada por seus admiradores”, e “certamente o ajudou a se destacar dentre os 513 deputados durante os seus 28 anos de atuação parlamentar”.

Adicionalmente, Ribeiro observa que “pode até ter sido coincidência, mas a emergência das autenticidades presidenciais está ocorrendo em momento de fortalecimento de perspectivas favoráveis a seu governo, especialmente no campo econômico”.

Ele cita a reforma da Previdência bem encaminhada, a perspectiva de novo ciclo de queda da Selic e medidas de estímulo como a do FGTS.

Bolsonaro poderia estar quieto no seu canto, torcendo para que os tênues sinais de melhora no mercado de trabalho (boa criação de emprego, incluindo formal, desde o início do ano na PNADC), atividade (alta do IBC-Br de maio ante abril de 0,54%) e confiança (após quatro meses de queda, os índices de confiança de empresas e consumidores da FGV voltaram a subir) se consolidem num ritmo de recuperação econômica mais aceitável.

Isso certamente ajudaria a escorar a sua popularidade, que declinou rapidamente no início do mandato, e agora parece ter se estabilizado num nível desconfortável, mas ainda manejável.

Mas não, o presidente está cada vez mais inquieto, como nota Ribeiro.

Anunciou a indicação do filho Eduardo Bolsonaro para o cargo de embaixador nos Estados Unidos, contestou os dados de desmatamento do Inpe, atacou a jornalista Miriam Leitão, inadvertidamente referiu-se a nordestinos como “paraíbas” etc.

Segundo Ribeiro, esses arroubos não apenas escandalizam a esquerda, mas também criam desconforto no centro, levando à percepção de parcela centrista de que “é prudente manter uma certa distância em relação ao autêntico presidente”.

O analista acrescenta que “a radicalidade do presidente e de seu projeto político levanta dúvidas a respeito do espaço que a centro-direita tradicional terá junto ao bolsonarismo nas eleições de 2020 e 2022”.

Por outro lado, a centro-direita, caso a economia se recupere de forma mais efetiva, ficará tentada pela adesão a um presidente popular e que “vem demonstrando mais generosidade na distribuição de cargos e verbas”.

Assim, um fator essencial é para que lado vai pender a parcela de 30% do eleitorado que hoje considera o governo “regular”. Se a maior parte desse contingente vier para o colo de Bolsonaro, com a retomada da economia, a tentação para a centro-direita aumenta.

A curto prazo, Ribeiro vê a possibilidade de “sacolejos” na relação de Bolsonaro com o Congresso, mas nada que, por exemplo, atrapalhe um final feliz na aprovação da reforma da Previdência.

A polarização nacional, porém, deve perdurar, até estimulada por Bolsonaro que – como este período pós-aprovação da Previdência na primeira votação da Câmara sugere – pode ficar mais belicoso à medida que se sinta mais seguro quanto à economia e sua popularidade.

Ribeiro é mais cauteloso em relação ao médio e longo prazo, fazendo mais perguntas do que respostas. A principal delas é como a combinação de uma eventual retomada da economia e a “autenticidade” agressiva de Bolsonaro vai conformar o terreno para a complexa relação do presidente com a centro-direita nos próximos embates eleitorais.

É difícil dizer se Bolsonaro usa a parte mais radical da sua agenda para consolidar seu poder ou se busca consolidar seu poder para poder ir mais longe na parte radical da agenda. Como Trump e outros populistas de direita, o presidente parece reencenar incessantemente os padrões de comportamento e as artimanhas que pavimentaram seu caminho para o poder.

A autenticidade de que fala Ribeiro talvez seja a mais fundamental ferramenta eleitoral de Bolsonaro. Outros tipos de psicologia presidencial poderiam economizar o uso do trunfo para os momentos mais difíceis. Não parece ser o caso da linhagem política à qual Bolsonaro pertence: aqui, a autoconfiança se confunde com a autoafirmação. Os adversários e incomodados que se preparem para novas bordoadas da beligerante autenticidade presidencial.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 26/7/2019, sexta-feira.