A batata quente do BC

IPCA de maio surpreende de novo para cima e Banco Central deve ter que engrossar a voz.

Fernando Dantas

09 de junho de 2021 | 18h24

O cenário inflacionário continua piorando. O IPCA de maio de 0,83% veio acima do teto das expectativas de mercado, levando a novas revisões para cima do índice cheio no ano.

O Credit Suisse, por exemplo, elevou sua projeção de IPCA este ano de 6% para 6,3%, mais de um ponto porcentual acima do teto de tolerância do regime de metas, de 5,25% (a meta de 3,75% mais 1,5 ponto porcentual).

Para 2022, o banco está mantendo sua projeção em 4,5% (1 pp acima da meta de 3,5%), mas alerta que pode ser mais, por causa da inércia e da alta da energia em função da crise hidrológica.

É verdade que o atual repique inflacionário, não só no Brasil, mas em diversos países, está muito ligado aos muitos e poderosos choques de oferta que, por sua vez, em boa parte estão vinculados à pandemia. Mas pressupor que todos esses efeitos terão vida breve é arriscado.

Alguns gargalos logísticos podem perdurar. Como recentemente noticiado pelo Financial Times, a fabricante de eletrônicos Flex, multinacional americana com sede em Cingapura, estimou que a falta de semicondutores no mercado global vai durar ainda pelo menos um ano.

Também é difícil divisar com clareza a duração do ciclo de alta de commodities. Em parte, o fenômeno está ligado à volta exuberante de muitas economias após o pior da pandemia.

No caso dos Estados Unidos, porém, o aquecimento da atividade (que impacta o mundo todo) deriva também de uma escolha deliberada e ousada de política econômica pelo presidente Joe Biden.

Biden vem lançando pacotes de estímulo fiscal de enorme magnitude, que seriam condenados pela visão consensual do establishment há apenas poucos anos, e hoje são – ainda que polêmicos – tolerados.

Ninguém sabe ao certo o real efeito inflacionário do Bidenomics. Mas parece claro que a demanda global conta agora com o motor “envenenado” da economia americana por um bom período à frente.

Outro ponto de preocupação inflacionária é a volta forte dos serviços, quando a vacinação de fato derrota a pandemia. Também nesse caso pode haver gargalos de oferta, como linhas aéreas que devolveram aviões em leasing e foram pegas de surpresa pela velocidade da volta do tráfego aéreo, ou a redução da oferta de refeições fora de casa, pelo fechamento de restaurantes, também provocando pressões de demanda.

O Brasil ainda não está nesse ponto, já que a vacinação está lenda e a pandemia longe de controlada. Mas talvez já haja sinais, como a alimentação fora de casa, que subiu 0,98% em maio, acelerando em relação à alta de 0,23% em abril.

O Banco Central, portanto, está com a batata esquentando nas mãos. A sinalização de “ajuste parcial” provavelmente vai ser removida na tentativa de controlar as expectativas inflacionárias para 2022.

Num padrão que vem se repetindo, como no caso do “forward guidance”, o BC tentou – com a fórmula do ajuste parcial – sinalizar que a inflação ainda não era esse bicho papão todo e que também estava de olho na atividade, apenas para ser atropelado por surpresas altistas no IPCA e ser forçado a voltar atrás.

Agora, tudo indica que o Copom terá que engrossar a voz e adotar uma postura mais “hawkish”, o que não é agradável num momento em que – prematuramente – a disputa presidencial de 2022 entra em cena.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 9/6/2021