A boa surpresa do IPCA de abril

Fernando Dantas

14 de maio de 2014 | 18h48

A surpresa positiva no IPCA de abril torna mais possível que o IPCA não ultrapasse o teto de tolerância do sistema de metas (6,5%) em 2014, embora nem de longe elimine a possibilidade inversa. De qualquer forma, considerando-se os claros sinais recentes de que o Comitê de Política Monetária (Copom) quer parar de elevar a Selic, o IPCA de abril deve elevar a proporção de apostas de que o BC vai interromper a alta da Selic na próxima reunião do Copom, em 27 e 28 de maio. Dessa forma, a Selic permaneceria no nível atual, de 11%, pelo menos até as eleições de outubro.

O IPCA de abril ficou em 0,67%, ante mediana de expectativas de 0,8%.

O IPCA-15 de maio será divulgado em 21 de maio, antes da próxima reunião do Copom, mas as indicações das coletas é de que deve vir abaixo do índice de abril. Se isto de fato acontecer, provavelmente reforçará a expectativa de que o BC deixe a Selic em 11%.

A principal razão para a forte discrepância entra a mediana das expectativas de mercado sobre o IPCA de abril e o resultado efetivo, segundo analistas de inflação, foi o fato de que a alta dos alimentos veio bem abaixo do indicado pela coleta diária da FGV, que tem servido de parâmetro para as projeções do mercado. Segundo um experiente economista de mercado, essa foi uma das maiores diferenças entre a coleta da FGV e o resultado efetivo da alimentação no IPCA nos últimos dois anos.

“Esse tipo de diferença ocorre, possivelmente por questões de amostra, mas é um desvio que tende a reverter à média – isto é, que pode ser compensado por surpresas na outra direção”, alerta.

O analista notou que a inflação embutida na negociação de títulos pelo mercado recuou de forma muito próxima à diferença entre o IPCA de abril e as projeções anteriores à divulgação. Em outras palavras, parece ter havido uma correção especificamente dessa surpresa, mas o índice não sinalizou que haja uma melhora mais duradoura no quadro inflacionário.

“O mercado parece indicar que foi um erro pontual, e não que a dinâmica da inflação mudou”, ele disse.

A inflação de abril, entretanto, pode ter impactos importantes no jogo da política monetária em 2014, especialmente levando em conta a comunicação recente do Banco Central (BC).

Ainda há chances muito grandes de a inflação em 12 meses superar o teto do intervalo de tolerância do sistema de metas (de 6,5%) ao longo de 2014, mas isso deve ocorrer um pouco depois do previsto – talvez entre julho e outubro – e a possibilidade de que não chegue a ultrapassar 7% aumentou um pouco. Mais importante, o IPCA de abril aumenta as chances de que o IPCA não supere os 6,5% no ano fechado, embora isto esteja muito longe ser garantido.

Um fator que ainda pode complicar a vida do BC este ano é a inflação da Copa, que deve se manifestar em junho e julho, e afetar itens como hotéis, restaurantes, transporte e diversos tipos de serviços. Segundo um analista, a julgar pela experiência da África do Sul, o efeito pode ser substancial, mas boa parte é devolvida rapidamente, com a possibilidade de algum resíduo até o final do ano – que poderia ser decisivo para que o IPCA fique acima ou abaixo dos 6,5%.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 9/5/14.

Tendências: